Ó pa í, prezada!

Carla Akotirene. Ó pa í, prezada: racismo e sexismo institucionais tomando bonde nas penitenciárias femininas. Pólen, 2020.

whatsapp-image-2019-12-17-at-16-12-031-fdb9c41430de39c26f15766075554838-1024-1024Carla Akotirene é formada em Serviço Social e integra o quadro de docentes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), centralizando seus estudos sobre racismo e sexismo institucionais. Também atua na Saúde Municipal, atendendo mulheres vítimas de violência doméstica. Pesquisadora da Epistemologia Feminista Negra, é mestra, doutoranda em Estudos de Gênero, Mulheres e Feminismo (UFBA). Além do livro de que trata esta resenha, é autora também de O que é interseccionalidade?, da coleção Feminismos Plurais, coordenada pela intelectual Djamila Ribeiro.

O título do livro, que traz uma expressão comum do Estado da Bahia, “ó pa í”, é explicado por Denise Carrascosa, professora de literatura da UFBA, no prefácio. Trata-se de uma espécie de aviso ou advertência sobre algo que não está certo. Por outro lado, o termo “prezada” constitui uma gíria utilizada pelas mulheres encarceradas para fazer referência a um(a) agente penitenciário ou de segurança. Logo, somente pelo título, pode-se perceber que a autora traz uma crítica não só sobre as atitudes de funcionários penitenciários, mas também sobre o funcionamento estrutural do sistema carcerário feminino de um modo geral.

Ó pa í, prezada resultou da pesquisa realizada por Carla no mestrado no Programa de Pós- Graduação em Estudos de Gênero, Mulheres e Feminismos da UFBA. A obra é composta por sete capítulos, subdivididos em seções menores: “Sobre a pesquisa”; “A criminalização das mulheres condicionada pelo racismo e pelo sexismo”; “A prisão na perspectiva da interseccionalidade de gênero, raça e classe”; “As mulheres no conjunto penal feminino de Salvador”; “Emoções encarceradas: as prisões dos saberes e os saberes das prisões”; “Agora é que são elas! Ouvindo as vozes das internas”; e “Considerações finais: do matriarcado da miséria à comunidade das mulheres – um cenário de pena”.

No que concerne à primeira parte do livro, pode-se dizer que há uma exposição mais voltada para a parte teórica da pesquisa. Carla Akotirene explicita seu embasamento teórico-metodológico voltado para a análise comparativa do racismo institucional e da interseccionalidade, apoiada pelo Feminismo Negro, uma vez que procura evitar tornar a questão de gênero prioritária para não reafirmar a “mulher universal – branca, heterossexual, vitimada inevitavelmente pelo patriarcalismo dentro da prisão” (2020, p. 26). Faz-se interessante salientar também que a pesquisadora optou por empregar a metodologia afrodescendente, uma vez que “não se pretende neutra, objetivada ou alheia à identificação com a identidade social das mulheres negras encarceradas” (2020, p. 29).

Em certo momento da narrativa, a autora analisa o impacto da regulamentária (tomada aqui como conjunto de normas, pareceres, regulamentos etc) prisional na vida das mulheres encarceradas e os modos como tais regras se configuram a fim de perpetuar práticas racistas e sexistas. A segunda seção do livro apresenta um viés mais empírico, pois apresenta a própria experiência de Carla Akotirene na prisão durante as entrevistas, mostrando-nos a potência do afeto e de como ela era afetada, enquanto pesquisadora negra, diante das dores e questões de outras mulheres negras; como também, os depoimentos de mulheres encarceradas. As entrevistas são expostas e, ao mesmo tempo, seus significados e reverberações são analisados teoricamente.

Ao final, a autora traz uma série de trechos presentes na legislação que são incoerentes com a vivência experienciada pelas mulheres encarceradas. Pode-se afirmar que foi muito feliz a ideia de transformar a pesquisa de mestrado de Carla Akotirene em livro, pois, agora, tal obra circula em diversos espaços mais acessíveis e menos acadêmicos. É de suma importância a compreensão de como o conceito de interseccionalidade mostra como diferentes opressões podem se cruzar e convergir num mesmo sujeito, uma vez que se encontra inserido em uma sociedade racista, patriarcal, elitista e homo/lesbo/transfóbica.

 

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