Ser uma criança negra na pré-escola

A pré-escola é uma fase fundamental na construção da autoestima de uma criança. Embora seja um processo que perdura ao longo da vida, é na infância que esse processo tem início e é a partir das primeiras experiências em sociedade – que acontecem, em maior parte, na escola – que o indivíduo desenvolve percepções de si mesmo, podendo ser positivas ou negativas dependendo das experiências vivenciadas.

A pesquisadora Eliane Cavalleiro, em sua pesquisa Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar: Racismo, Preconceito e Discriminação na Educação Infantil (Contexto, 2012), aborda a importância da escola não só na construção e integração da criança na sociedade, mas também na forma como a criança interage com o mundo a partir dos valores interiorizados por ela, seja por meio da família e/ou por meio da própria escola. Segundo Cavalleiro, “a experiência escolar amplia e intensifica a socialização da criança. O contato com outras crianças da mesma idade, com outros adultos não pertencente ao grupo familiar, com outros objetos de conhecimento, além daqueles vividos pelo grupo familiar vai possibilitar outros modos de leitura do mundo”.

Quando penso sobre os momentos mais traumatizantes da minha infância, o período da educação infantil é protagonista em praticamente todos eles. Sendo o sistema escolar um dos fatores mais eficazes para a conservação social, a escola reforça os preconceitos e estereótipos raciais presentes em nossa sociedade, o que fez com que minha vivência em sala de aula resultasse em uma série de violências simbólicas, que contribuíram para a minha baixa autoestima acadêmica.

Primeiro, devemos levar em consideração a minha localização na pirâmide social: o fator raça e classe sempre influenciou muito no que diz respeito à minha vida acadêmica. Sendo uma pessoa negra exposta a condições socioeconômicas diferentes de pessoas brancas, sempre estudei em escolas nas quais, mesmo pertencentes à rede pública, eu era minoria. A falta de outras crianças negras nas salas de aulas sempre causou em mim a sensação de “não pertencimento” ao ambiente escolar. Afinal, como poderia pertencer a um lugar no qual não havia outras crianças iguais a mim?

Essa sensação de “não pertencimento” foi reforçada ao longo dos anos, à medida que era exposta à situações diárias de racismo – como, por exemplo, ter a minha capacidade intelectual colocada em dúvida ao ser considerada, pelos colegas de turma, como a “mais burra da sala de aula”. Tal dúvida era reforçada ao lidar com a baixa expectativa que os professores tinham sobre mim, o que impactou diretamente na construção da minha autoestima acadêmica.

A negligência dos professores diante de situações discriminatórias, falta de empatia, “brincadeiras” e piadas racistas, agressões físicas e verbais, perseguições e exclusão de atividades ou momentos de lazer tanto dos colegas de turma quanto dos professores foram experiências vivenciadas por mim durante a pré-escola – e, embora as escolas defendam o discurso de que não há preconceitos entre crianças, tais acontecimentos estiveram presentes no meu cotidiano escolar e foram responsáveis por grande parte dos meus traumas de infância.

Tudo isto se soma à falta de figuras negras nos conteúdos didáticos, que reforça o racismo presente no ambiente escolar e contribui para a baixa autoestima – pois olhar para os livros e não se ver representada neles ou ver pessoas negras em posições secundárias, sem grandes destaques, transforma todo o processo de aprendizagem em algo desestimulante.

Infelizmente, a pré-escola foi uma fase que me marcou negativamente e transformou minha experiência com a educação em um processo doloroso, que se resume em uma busca constante para encontrar meu lugar de pertencimento dentro do ambiente acadêmico – mesmo que o racismo presente no sistema educacional diga que não há um lugar para mim.

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