“Não somos racistas! Racistas são os outros”

Djamila Ribeiro. Pequeno manual antirracista. Companhia das Letras, 2019.

O primeiro ponto a ser observado no Pequeno manual antirracista da filósofa Djamila Ribeiro, é a acessibilidade da linguagem. Djamila constrói este texto recorrendo a uma linguagem de fácil compreensão; uma escrita objetiva que visa alcançar pessoas de todas as camadas e contextos sociais – afinal, pensar racismo e discutir práticas antirracistas envolve toda a sociedade brasileira. Logo, é preciso ultrapassar os muros elitistas das universidades e falar com os Paulos, Anas, Ritas, pessoas que nunca pisaram em uma universidade – embora, através de seus trabalhos, mantenham esse espaço – e que, possivelmente, não conseguiriam compreender um texto academicista. Por isso, afirmo que a escolha dessa escrita é uma escolha política, tal qual a escrita de bell hooks – que, em seu livro Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade, nos afirma que “nenhuma teoria que não possa ser comunicada numa conversa cotidiana pode ser usada para educar o público”.

Pequeno manual antirracista é dividido em 11 capítulos – apesar de não receberem o nome de “capítulo” no livro, usaremos esse termo para concatenar melhor as ideias. são eles: “Informe-se sobre o racismo”; “Enxergue a negritude”; “Reconheça os privilégios da branquitude”; “Perceba o racismo internalizado em você”; “Apoie políticas educacionais afirmativas”; “Transforme seu ambiente de trabalho”; “Leia autores negros”; “Questione a cultura que você consome”; “Conheça seus desejos e afetos”; “Combata a violência racial”; e “Sejamos todos antirracistas”.

Na introdução, Djamila nos traz alguns fatos históricos a fim de que questionemos essa história branca que, ainda hoje, é frequentemente vendida como única perspectiva historiográfica possível; perspectiva esta que coloca a figura do negro em um lugar de passividade absoluta diante das barbaridades às quais foi submetida – consequentemente, tirando-a do lugar de protagonista, por exemplo, na luta contra o sistema escravocrata. Não esqueçamos jamais de Dandara, Luísa Mahin, Mariana Crioula, Tereza de Benguela, Zacimba Gaba e tantas outras e tantos outros. A escritora nos lembra ainda do Quilombo dos Palmares, em Alagoas, que “perdurou por mais de um século, e que se organizaram vários levantes como forma de resistência à escravidão, como a Revolta dos Malês e a Revolta da Chibata”. O que nos mostra quão essencial é revisitar nossa história com um olhar crítico, com um olhar decolonial.

Também somos lembradas por Djamila dos dispositivos legais – como a Constituição do Império de 1824, que determinava educação para todos, mas vetava pessoas negras; e a Lei de Terras, de 1850, que acabava com a apropriação de terras por ocupação, permitindo que o Estado as distribuísse apenas para quem tinha dinheiro para pagar (perceba que esta lei antecedeu a abolição; nesse contexto, qual era a possibilidade da população negra adquirir uma terra sob essas condições? ). Essas leis foram utilizadas pelo Estado brasileiro para beneficiar os brancos e manter a população negra à margem, o que nos permite perceber a relação direta entre a escravidão e o racismo que, até hoje, delineia a estrutura da nossa sociedade – ainda impregnada de ideais escravagistas, mesmo após 132 anos da abolição. Por isso, Djamila coloca o racismo como um sistema que, sobretudo, nega direitos, e nos convoca a refletir sobre racismo estrutural e práticas antirracistas a partir das palavras do jurista e filósofo Silvio Almeida:

“Consciente de que o racismo é parte da estrutura social e, por isso, não necessita de intenção para se manifestar, por mais que calar-se diante do racismo não faça do indivíduo moral e/ou juridicamente culpado ou responsável, certamente o silêncio o torna ética e politicamente responsável pela manutenção do racismo. A mudança na sociedade não se faz apenas com denúncias ou repúdio moral do racismo: depende, antes de tudo, da tomada de posturas e da adoção de práticas antirracistas.”

É de essencial importância que conheçamos a maneira como o racismo se articula no Brasil e identificar os mitos que corroboram com a ideia de que não há racismo por aqui, como se vivêssemos sob uma plena harmonização racial (o maior desses mitos é justamente o da democracia racial, estabelecido por Gilberto Freyre, mencionado no livro). Ideias como essa são facilmente refutadas, afinal, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado aqui. Djamila ainda nos oferece outro dado, resultado de uma pesquisa do Datafolha feita em 1995, segundo a qual 89% dos brasileiros admitiam a existência do racismo no Brasil; mas, paradoxalmente, 90% desses brasileiros se consideravam não racistas. Esse dado é apresentado para ilustrar uma fala do professor e antropólogo Kabengele Munanga, que diz: “ecoa, dentro de muitos brasileiros, uma voz muito grande que grita: ‘Não somos racistas! Racistas são os outros”.

Ora, o passo inicial para a discussão de práticas antirracistas é a nomeação dessa opressão: não se combate aquilo que não tem nome, como bem alerta Djamila –

“Não tenha medo das palavras ‘branco’, ‘negro’, ‘racismo’, ‘racista’. Dizer que determinada atitude foi racista é apenas uma forma de caracterizá-la e definir seus sentidos e suas implicações. A palavra não pode ser um tabu, pois o racismo está em nós e nas pessoas que amamos – mais grave é não reconhecer e combater a opressão.”

A escritora coloca o autoquestionamento como primeiro passo na luta antirracista: o que eu tenho feito pela luta contra o racismo? O que mais eu posso fazer para colaborar com esta luta? – óbvio que não será uma postagem em rede social que fará de você uma pessoa antirracista, certo? As respostas para essas questões vão surgindo à medida que você se coloca disposta não só a pesquisar sobre (nós, enquanto mulheres pretas, não temos a obrigação de ficar ensinando aos brancos sobre racismo, epistemicídio, silenciamento, enfim, o google está aí: busquem vocês o conhecimento!); mas, sobretudo, quando você começa a se colocar no lugar de escuta: não seja a pessoa branca que quer nomear o que é ou não uma prática racista. Esse não é o seu lugar.

O livro apresenta uma série de articulações feitas pela população negra a fim de romper com a monopolização da branquitude sobre o saber e os meios estéticos; estratégias que visavam/visam sair desta marginalização imposta. A exemplo, é mencionado o movimento dos Panteras Negras – que lutava contra a segregação racial nos EUA, pela emancipação do povo negro e pela valorização da estética negra; o Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias do Nascimento – que valorizou a cultura afro-brasileira; a série Cadernos Negros – que foi um marco na produção literária negra – e tantas outras iniciativas que buscavam/buscam trazer para o centro a nossa subjetividade negada. Djamila pondera que:

“É importante ter em mente que para pensar em soluções para uma realidade, é preciso tirá-la da invisibilidade. Portanto, frases como ‘eu não vejo cor’ não ajudam. O problema não é a cor, mas o seu uso para segregar e oprimir. Vejamos cores, somos diversos e não há nada de errado nisso – se vivemos relações sociais, é preciso falar de negritude e também branquitude.”

Neste livro, também é retomado o conceito de lugar de fala – que foi proposto pela própria Djamila em seu livro O que é lugar de fala? –, justamente por ter havido um esvaziamento e uma distorção da discussão por ela proposta: as pessoas brancas começaram a perguntar se poderiam participar da luta antirracista, mesmo não sendo este o seu “lugar de fala”. Veja: a ideia de lugar de fala nunca foi sobre dizer quem pode ou não falar; seu sentido é escancarar as falas que eram/são invisibilizadas e mostrar que todo sujeito, dentro de um discurso, fala a partir de um lugar social e a partir de experiências próprias desse lugar. E, então, Djamila traz uma provocação da escritora Grada Kilomba em que diz que o racismo é uma problemática branca e, mais adiante, conclui que: “o racismo foi inventado pela branquitude, que como criadora deve se responsabilizar por ele”. As pessoas brancas têm a obrigação de questionar a ausência de pessoas negras em espaços de poder e pensar ações que mudem essa realidade. Note que não se trata de poder ou não poder falar sobre racismo; isso é uma obrigatoriedade destinada à pessoas brancas.

Ainda pensando sobre essa ausência, Djamila traz uma fala da pesquisadora Joice Berth para mostrar que isso ultrapassa a ideia de representatividade: é uma questão de proporcionalidade. Aproveitando um dado oferecido pela própria Djamila, segundo o qual o Brasil é a maior nação negra fora da África, eu pergunto: como pode ser normalizada a ideia do negro único ocupando os espaços? Em um comercial com cinco crianças, está tudo bem apenas uma ser negra? Lembro que Zezé Motta, atriz brasileira, dizia que quando o elenco de uma novela contava com a presença de Ruth de Souza, já não havia lugar para a própria Zezé, porque a cota fora preenchida. E o mais absurdo é haver pessoas que recorrem à ideia do negro único para se autoafirmarem antirracistas, quando, na verdade, isso apenas comprova quão racista é a sociedade brasileira.

Uma prática básica que é mencionada no livro e que pode ajudar a mudar essa ausência que se estende a todas as esferas sociais (universidade, mídia, posições de chefia, parlamento) é, por exemplo, votar em candidatas comprometidas com a pauta racial; candidatas que têm um histórico de lutas por minorias; candidatas que mostrem propostas de políticas públicas para inclusão social dessas minorias. Não adianta se dizer antirracista e votar para Presidência da República em um homem branco que diz: “Fui num quilombola [sic] em Eldorado Paulista. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem para procriadores servem mais”. Ser antirracista é uma prática cotidiana.

Outra prática antirracista é a valorização dos nossos saberes, é manter a luta diária contra o epistemicídio – afinal, como afirma Abdias do Nascimento (citado por Djamila), “genocídio é toda forma de aniquilação de um povo, seja moral, cultural ou epistemológica”. Outro dia, vi a seguinte pergunta: “quais livros de literatura brasileira você já leu?”; dentro de uma sociedade essencialmente racista e machista, essa pergunta precisa ser feita dentro do recorte pertinente, para que se evidenciem as nossas urgências. Por isso, o mais sensato é que se pergunte: “quais livros de literatura brasileira de autoria feminina negra você já leu?”. Tenha certeza, as respostas serão sempre desanimadoras; mas seguimos por Maria Firmina, Carolina, Geni, Conceição, Lia, Miriam, Eliana, Lubi, Jarid, Ryane, Elizandra e tantas, tantas outras.

Sobre a importância de se ler pessoas negras, Djamila pondera:

“O apagamento da produção e dos saberes negros e anticoloniais contribui significativamente para a pobreza do debate público, seja na academia, seja na mídia ou em palanques políticos. Se somos a maioria da população, nossas elaborações dever ser lidas debatidas e citadas.”

Outro ponto é que não tem como ser antirracista e não combater o genocídio contra o povo negro; não tem como se dizer antirracista e não ir contra as políticas, estabelecidas pelo Estado, de extermínio da população pobre e negra. Djamila nos traz um dado para comprovar que a bala nunca é perdida (como bem versificou Lubi Prates, “eu sei que/ balas/ perdidas/ atingirão meu corpo/ este eterno alvo”), afinal:

“Os negros representam 55,8% da população brasileira e são 71,5% das pessoas assassinadas. Entre 2006 e 2016, a taxa de homicídios entre não negros (brancos, amarelos e indígenas) diminuiu 6,8%, enquanto no mesmo período a taxa de homicídio da população negra aumentou 23,1%.”

Repita em voz alta: Ágatha Félix, oito anos, não foi um caso isolado. Jenifer Silene Gomes, onze anos, não foi um caso isolado. Kauã Vitor Nunes, onze anos, não foi um caso isolado. João Pedro Mattos Pinto, catorze anos, não foi um caso isolado. O Estado mira na cabecinha e acerta uma criança preta: é uma máquina genocida e, para ser antirracista, precisamos lutar contra ele.

Deixem as nossas crianças vivas!

Silêncio.

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