Crespo é identidade. Crespo é resistência (parte I)

Screenshot_20180710-111159Djaimilia Pereira de Almeida conta em Esse cabelo a história de um cabelo crespo que surge depois de um primeiro corte, aos seis meses de sua existência. Esse cabelo narra suas aventuras, as relações que se estabelecem pelos fios; ou, em segundo plano, pelos diferentes continentes e/ou pessoas de diferentes etnias.

Lendo o livro, mergulhei em diversas memórias – focarei nelas – sobre experiências proporcionadas pelo meu cabelo: sua origem, seu crescimento, as intervenções, as texturas, os penteados, as vivências, o difícil racismo velado, as pressões, a aceitação, a resistência… (a lista é infinita).

Sendo eu filha de mãe branca e pai negro, encontrei uma lacuna muito grande na construção da minha consciência enquanto mulher negra. Poucas pessoas falam sobre isso, mas, quando menina, se não temos uma referência de autoestima e cuidados na nossa mãe, é muito provável que isso seja mais difícil de se construir; o caminho se torna muito mais penoso. É um pouco óbvio, como 2 + 2 é igual a 4: se minha mãe é branca, logo ela não tem a experiência de menina ou de mulher negra, e se ela é branca e tem o cabelo cacheado ou liso, logo ela não tem noção nenhuma de como lidar com o cabelo crespo – era meu caso e o caso das minhas irmãs.

Na minha casa, eu vivia ouvindo que eu tinha o cabelo mais “rebelde”, mais difícil de pentear, cuidar. Daí você já pode imaginar que ele só vivia preso ou muito armado mesmo.

Na escola, no jardim de infância, meu pai que arrumava meus cabelos; no geral ele fazia a famigerada “Maria Chiquinha”, e eu detestava! Lá na escola, eu me isolava, não lembro exatamente o porquê, mas lembro que eu era muito sozinha. Nas peças de teatro as princesas eram sempre as meninas clarinhas com seus cabelos que batiam nas costas. As bonecas eram brancas, loiras. Na televisão, a protagonista também! Faltava referência, representatividade, empoderamento, estímulo, autoestima. Quem daria tudo isso a uma menina negra lá na favela, na beira do rio?

Então, desde muito cedo tentaram dar um jeito nos meus cabelos rebeldes. Lembro-me perfeitamente de sentar frente a uma senhora que era nossa vizinha e que cortava e “relaxava” meus fios (sempre imaginei um cabelo muito nervoso quando lia isso nas embalagens dos relaxantes). Toin Floit, com a imagem das meninas do Netinho de Paula, foi o que comecei a usar com 4 ou 5 anos. Acho que o Toin Floit, chamado pela minha família, carinhosamente (ou com intuito de facilitar a pronúncia), de “Toin toin”, foi a primeira química que meu cabelo conheceu. Ficava bonito, com uns cachinhos comportados nas primeiras semanas, mas depois os “parentes” apareciam, aqueles que lembravam sempre que aquela que estava na minha cabeça não era, de fato, minha textura original, era uma textura “outra” criada pela química. Não sei exatamente em que momento começaram a achar o relaxamento fraco, mas sei que mudaram várias e várias vezes o tratamento. Às vezes, era o que cabia no bolso; outras vezes, minha mãe se deixava guiar pelas promessas que estavam escritas nas embalagens – a mais convincente, ela levava.

Foram tantas químicas! Nunca me esqueço de uma vez em que o procedimento foi muito agressivo. O tal “Guanidina” começou a arder demais e, sob a opressão do “pra ficar bonita tem que sofrer”, aguentei o tempo estimado; porém, quando lavei a cabeça e passei os dedos no coro cabeludo, percebi que estava muito machucada.

Entre uma química e outra, fui me distanciando cada vez mais das minhas raízes; até que, enfim, decidi fazer uma progressiva aos 18 anos para o baile de formatura do ensino médio, e pintei de loiro também. Ficou muito “daora”, porém eu não me reconhecia naquilo. Eu estava muito longe de mim mesma e corri para me encontrar. Percebi que não tinha grana e nem paciência para as pranchas e tratamentos, passei a brigar com o volume e com o tempo vi que precisava tratá-lo de um outro jeito. Eu precisava me dar uma nova chance de ser eu.

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