Discutindo raça e representação

bell hooks. Olhares Negros: raça e representação. Editora Elefante, 2019.

Lançado em 1992 nos Estados Unidos, Olhares Negros chega ao Brasil, pela Editora Elefante, mais de duas décadas depois, mas tratando de temas atuais e altamente relevantes. Esse trabalho incrível conta com a tradução da Stephanie Borges, com o prefácio de Rosane Borges e capa e projeto gráfico de Leticia Quintilhano. O livro é uma coletânea de ensaios críticos e o que os une é a questão da raça e representação – presentes no subtítulo da obra. bell hooks interroga narrativas e discute a respeito de alternativas para observar a negritude e a subjetividade de pessoas negras. Para isso, ela trata da branquitude como um sistema de supremacia branca que perpetua a ideia que tudo aquilo que vem do branco é bom, certo, belo, agradável, puro, respeitoso, capaz, ou seja, não é passível de crítica, e assim, é aceito como parâmetro. Dessa forma, o que foge desse modelo é ruim, errado, feio, desagradável, maculado, exótico, desagradável, assustador. bell hooks enfatiza como é nocivo para a sociedade, mas principalmente para pessoas negras, que essa ideia continue sendo levada a diante.

A autora aborda ao longo dos textos o estigma ao qual pessoas negras estão sujeitadas e pontua, desde o começo do livro, como a formação imagética está fortemente relacionada ao poder das estruturas raciais e sexuais da sociedade. A descolonização e a autodefinição do olhar são o ponto de partida de seu trabalho, pois é nesse sentido que, com uma drástica mudança social e o empoderamento do coletivo, pode-se confrontar noções racistas e misóginas que estão arraigadas no nosso olhar de espectador, que muitas vezes é difícil de reconhecer.

“Amar a negritude como resistência política transforma nossas formas de ver e ser e, portanto, cria as condições necessárias para que nos movamos contra as forças de dominação e morte que tomam as vidas negras.”

Por meio de pesquisas em diversos contextos culturais e das próprias experiências, a intelectual constrói sua narrativa, partindo do ponto de amar a negritude como ato de resistência política – tema que é abordado logo no primeiro texto – e entrando na questão da representação hipersexualizada da mulher negra na mídia e do protagonismo de algumas militantes. hooks retoma a trajetória e produção cultural de mulheres negras brilhantes como Angela Davis e Audre Lorde, que várias e várias vezes tiveram seus trabalhos deturpados por quem não estava de acordo com as mudanças radicais que suas falas sugeriam.

Ela também nos incita a pensar, sempre de maneira crítica, na forma como a sexualidade da mulher negra é representada nos meios de comunicação; para isso, trata de importantes figuras como Tina Turner e Naomi Campbell e a construção de uma imagem totalmente sexualizada e objetificada. Com a análise desses relatos, hooks nos desafia a pensar em como os estereótipos de “barraqueira”, “fogosa” e tantos outros têm um forte impacto nas nossas relações interpessoais – sobretudo com outras mulheres negras – e com nós mesmas.

“Representações de corpos de mulheres negras na cultura popular contemporânea raramente criticam ou subvertem imagens da sexualidade da mulher negra que eram parte do aparato cultural racista do século XIX e que ainda moldam as percepções hoje.”

Sem deixar de falar dos homens negros, em “Reconstruindo a masculinidade negra”, bell hooks observa que a imagem do homem negro resulta em um falocentrismo piorado, masculinidade exacerbada, virilidade excessiva, e na personificação do homem estuprador – representações que provêm de ideias patriarcais supremacistas brancas. A escritora convida à desconstrução dessa masculinidade e alerta sobre posicionamentos misóginos dentro do movimento negro. Para ela, é fundamental a responsabilidade coletiva para combater as variadas formas de opressão.

“Mudar representações de homens negros deve ser uma tarefa coletiva. Os negros comprometidos com a renovada luta de libertação negra, a descolonização das mentes negras, têm plena consciência de que devemos nos opor à dominação masculina e trabalhar para erradicar o machismo.”

hooks ainda critica alguns fenômenos que marcaram a cultura – o longa Is Paris Burning? e a cantora Madonna. Nesses textos, a autora fala da representação cultura negra a partir do olhar branco e como esse olhar de pessoas brancas consegue usar a cultura negra em beneficio próprio e ainda perpetuar o machismo e a misoginia.

A escritora está a todo momento nos lembrando da importância do antirracismo na luta feminista e tocando em questões que muitas vezes nos passam desapercebidas. E faz tudo isso num tom de compreensão e ensinamento. Para mim, foi uma leitura bastante prazerosa e proveitosa; em vários momentos, me peguei refletindo e abismada em perceber como é uma obra assustadoramente atual. Olhares Negros é um livro maravilhoso e, com certeza, é indicado para quem quer aprender e entender mais sobre raça e representação racista.

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