A tarefa de pensar o hoje

Rosane Borges. Esboços de um tempo presente. Rio de Janeiro: Malê, 2016.

ROSANEO extenso currículo de Rosane Borges – jornalista, pós-doutoranda em Ciências da Comunicação, professora colaboradora da USP, articulista da revista Carta Capital e do blog da editora Boitempo e autora de diversos livros, entre eles Mídia e racismo e Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro – já demonstra seu engajamento na sempre árdua tarefa de propor reflexões críticas sobre o mundo que nos cerca, norteadas por um compromisso com a luta antirracista e antissexista. Esboços de um tempo presente reúne ensaios e artigos originalmente publicados em portais como Geledés, Blogueiras Negras, Áfricas e Justificando; disso resulta um volume que, compilando mais de duas dezenas de textos, compõe um instigante mosaico sobre a contemporaneidade a partir de um olhar perspicaz e questionador.

A primeira parte da obra, “Cultura e política”, reúne meia dúzia de textos acerca de fenômenos tão diversos quanto o lançamento do jogo Pokémon Go – visto por Rosane Borges como uma espécie de utopia (ou distopia) tecnológica concebida para preencher o vazio político e a pobreza do imaginário contemporâneo –, a proliferação de discursos de ódio no espaço público e nas redes sociais – que a ensaísta entende como manifestações de barbárie que só podem ser enfrentadas por meio de um comprometimento coletivo que permita o resgate de nossa “cota de humanidade”, sobretudo por meio da educação –, o reconhecimento de Luiz Gama pela Ordem dos Advogados do Brasil como figura modelar para a advocacia pro bono – que a autora vê como gesto de reverência a um vulto negro que pode ensejar uma reconfiguração de nossa matriz discursiva, possibilitando, em suas palavras, “o advento de uma “episteme plural” – ou as crônicas de Cidinha da Silva compiladas em Baú de Miudezas – lidas como “crônicas que flertam com a poesia, mas que se mantêm crônicas”, e que refletem “a obstinada busca de uma prosadora para dizer a vida”.

Intitulada “Polifonias midiáticas”, a segunda parte de Esboços de um tempo presente traz cinco textos que tratam de produções cinematográficas, televisivas e temas associados ao jornalismo e às redes sociais (assuntos que encerram muitos questionamentos afins àqueles presentes nos textos da parte inicial, o que me permite supor que poderiam compor uma única seção). O ensaio que abre essa segunda parte trata da subvalorização do filme Selma, dirigido pela cineasta negra Ava DuVernay, no Oscar 2015, o que só pode ser explicado a partir do sexismo e do racismo denunciados, naquela mesma cerimônia, num discurso da atriz Patricia Arquette; diante desse episódio, Rosane Borges propõe “uma aliança entre política e imaginário” a fim de modificar as relações de poder, suscitando “um novo agenciamento de imagens em torno do negro e da mulher negra”. Algumas dessas questões retornam no ensaio dedicado a Sexo e as negas, seriado da TV Globo dirigido por Miguel Falabella acusado de reproduzir estigmas e estereótipos associados à representação das mulheres negras; como observa a ensaísta, isso se explica por uma recusa a se ouvir o “sujeito coletivo”, o que resulta num “descuido” – palavra que Rosane, argutamente, escreve entre aspas – que aprisiona as mulheres negras “no lugar da subalternidade”. O último texto dessa segunda parte, reprodução de um trabalho apresentado no I Encontro Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial, trata da relação entre “jornalismo, imagem e poder”; ao cabo de uma densa reflexão sobre como esses elementos se articulam na contemporaneidade, Rosane Borges indaga sobre a representação dos corpos negros de homens e mulheres que “ainda são desprovidos de poder, porque ainda fixados a padrões imagéticos que os aprisionam em lugares plenos de destituição de sua humanidade” – o que, como a própria autora observa, pode ser percebido nas representações de jovens negros acorrentados a postes, ou de crianças negras vendidas como escravas no Mercado Livre: “pensar num jornalismo democrático é pensar, antecipadamente, nos pactos estabelecidos para a visibilidade e transparência do mundo”, conclui a ensaísta, em que se pode perceber um alerta sobre a (ir)responsabilidade da mídia no que tange à permanência de valores racistas na contemporaneidade.

A terceira e mais extensa parte da obra, de título “Questões de gênero, racismos e afins”, reúne 13 textos, contemplando alguns dos acontecimentos e polêmicas mais importantes de nosso “tempo presente”. O artigo que a abre já o demonstra, ao traçar um perfil de Luiza Bairros, logo após seu falecimento; composto de duas partes, traz na primeira uma espécie de obituário, lembrando Luiza como uma “militante de proa” que “concebeu a inserção da luta antirracista e antissexista na dinâmica do espaço público como um imperativo ético e uma urgência política”, e na segunda o relato de uma mesa em que Rosane Borges participou ao lado de Conceição Evaristo e Makota Valdina, na qual a obra de Luiza foi tomada como um ponto comum para a articulação de trajetórias singulares. Dois textos tratam do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, evocando suas ressonâncias racistas (como o “desdobramento perverso” do pacote de maldades imposto pelo governo Temer, que afetou “especialmente as mulheres negras”) e a campanha difamatória perpetrada pela mídia contra a presidenta – tomada como ponto de partida para considerações sobre a relação entre o feminismo negro e o Dia Internacional das Mulheres. Em outro ensaio, Rosane Borges reflete sobre o episódio em que a atriz Fernanda Lima postou nas redes sociais uma foto das babás (negras) de seus filhos, apresentando-as como pessoas que “convivem” com a família “sem queixas, nem crises por parte de ninguém” – o que, como pondera a ensaísta, evidencia a negação à autonomia das mulheres negras e a permanência de estruturas racistas que lhes negam o acesso ao espaço comum, ao qual só podem ter acesso através de um outro, pela “voz da ‘patroa’”. Em alguns dos outros textos dessa última parte, Rosane ainda se debruça sobre o legado de Lélia Gonzalez, a prática da blackface, as imagens de violência policial contra a travesti Verônica Bolina e a possibilidade de se falar em um amor afrocentrado.

Embora o livro conte com uma apresentação de Cleidiana Ramos, seria interessante contar também com um texto prefacial ou posfacial assinado pela própria Rosane Borges, que talvez articulasse os questionamentos propostos nos ensaios do livro; ainda que tratem de uma diversidade de fenômenos, os textos são perpassados por diversos temas que eventualmente poderiam ensejar uma reflexão mais abrangente – tour de force do qual a autora teria plenas condições de dar conta, como deixa evidente a densidade das reflexões presentes no livro. Para além disso, alguns dos post-scriptuns apensos aos textos originalmente publicados poderiam ter sido suprimidos desta edição impressa, visto que trazem informações relevantes para o público leitor daqueles periódicos em que os textos foram dados à lume pela primeira vez, mas são pouco interessantes para quem lê o livro; e algumas correções pontuais poderiam ter sido feitas (o nome de Ava DuVernay, por exemplo, é grafado como Ava Duvrey em mais de uma página).

Ressalto, contudo, que nada disso faz de Esboços de um tempo presente um livro menos relevante para uma interpretação crítica do conturbado cenário em que atualmente vivemos – sobretudo quando se consideram as forças opressoras de raça e gênero que vêm recrudescendo, em decorrência da pressão exercida pelos setores mais reacionários. Que o olhar perscrutador presente nos ensaios de Rosane Borges, conquanto propostos como não mais que escorços, possam servir como subsídios para a emergência de estratégias propícias para a construção de uma outra realidade.

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