Sem perder a raiz (I)

Nilma Lino Gomes. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. Autêntica Editora, 2019.

A primeira edição de Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra, publicada em 2006, não tardou a se tornar uma referência incontornável, pela inovadora maneira como analisava a importância do corpo e do cabelo como ícones identitários. Em 2019, a obra chega à sua terceira edição ampliada. Dou início, com esta resenha, a uma sequência de três textos, ao longo dos quais comentarei a nova edição desta obra referencial.

Em Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra, Nilma Lino Gomes consegue discutir de forma sensível e profunda a subjetividade do “ser negro”, atravessada pelos ideais estéticos de uma sociedade estruturalmente racista. Nilma é escritora, negra, professora da Faculdade de Educação da UFMG e doutora em Antropologia Social pela USP. A obra é resultado de sua tese de doutorado, de mesmo título, defendida em julho de 2002. As publicações de Nilma vão desde artigos acadêmicos, oferecendo um amplo panorama das pesquisas de campo feitas com foco em temas como educação, ações afirmativas e relações étnico-raciais, até obras de ficção voltadas para o público infanto-juvenil: os livros Betina(2009) e O menino coração de tambor (2013).

No prefácio da edição atual, a autora conta ao leitor a motivação e os desafios encontrados na defesa de uma pesquisa etnográfica feita em quatro salões étnicos da cidade Belo Horizonte. Inicialmente, a tese de doutorado que resultou no livro foi feita através de uma intensa pesquisa de campo, realizada entre os anos de 1999 e 2002. A história de como nasce a pesquisa e o interesse de Nilma em trazer para uma pesquisa acadêmica um tema relacionado ao cabelo crespo e construção da identidade negra já torna a leitura instigante, uma vez que o tema parece excêntrico e entra em contraste com o imaginário que o leitor possa ter sobre um meio em que se produz ciência, intelectualidade e pesquisa. E é exatamente em cima deste contraste que Nilma traz um aprofundamento sobre temas extremamente relevantes relacionados à sua pesquisa: como o cabelo crespo e a cor da pele negra representam simbolicamente uma série de códigos que dizem qual o lugar e o valor de uma pessoa na sociedade. Ao mesmo tempo em que o cabelo e a cor de uma pessoa negra a definem em uma posição diante da sociedade, esses códigos representam internamente o próprio modo como um sujeito se percebe. Isso se dá na construção da sua identidade, no modo como percebe e sente o mundo, na maneira como se forma a sua subjetividade e principalmente na construção da sua autoestima.

Na próxima semana, publicaremos a segunda parte da resenha sobre o livro de Nilma Lino Gomes Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra.

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