O regresso de Geni

Geni Guimarães. Poemas do Regresso. Rio de Janeiro: Malê, 2020.

Não é simples ter a missão de escrever a primeira resenha do ano, assim como não é fácil ter a responsabilidade de escrever sobre uma obra de Geni Guimarães. Digo isso, pois falarei hoje sobre uma obra tão forte e potente quanto a sua autora, que é educadora, poeta, prosadora e vencedora do prêmio Jabuti. Na orelha do livro, diz-se que a obra é um reencontro da autora com a poesia, mas percebo que, apesar do hiato nas suas publicações nesse gênero, a poesia sempre esteve em Geni, e Poemas do Regresso marca a sua reconexão com o seu público leitor. Num contexto tão complexo como o que estamos vivendo, o contato com os 62 poemas que compõem a obra nos ajuda a suportar, com leveza, as dores e as angústias da vida:

Assim, se o obscuro me sonda
me controlo e faço a mira,
e cara a cara com o sujeito,
tiro do bolso um poema
e atiro bem no meio do seu peito.

Os poemas de Geni, de um modo geral, parecem traduzir em palavras não apenas a própria subjetividade, mas a de outras mulheres negras também — pois em muitos poemas, é possível que cada leitora estabeleça uma relação de identificação. Seus versos são diversos, e uso esta palavra para fazer referência às múltiplas existências retratadas nessa obra e que deságuam num eu lírico amplo, que não cabe apenas nas páginas do livro. Isso pode ser visto, por exemplo, em “Causas”:

A negação dos passos
o abafar dos sons em nossos ouvidos,
o esconder de bombas ainda não detonadas,
nos penduram em prédios partidos
e encaixam nossas dores,
entre a voz e o silêncio do mundo.

Os poemas selecionados pela autora para compor a obra também são marcados pela afetividade. As relações amorosas, assim como o desejo, são naturalizadas e atualizadas por uma sensibilidade totalmente distanciada de uma ótica de objetificação tão forçosamente imposta a nós. “Ao pé do ouvido” e “Extremo”, por exemplo, trazem a perspectiva de um eu lírico que está aprendendo a lidar com os sentimentos após um momento de separação.

Também é importante destacar que a metalinguagem é parte importante da obra — talvez por esse momento de retorno às publicações poéticas. No poema “Aspiração”, o sujeito poético expõe aquilo que se deseja alcançar com os próprios versos. Ressalto aqui que cada poema da obra ultrapassa esse desejo de ser “brasa acesa, atenta,/ ao gosto de ser pulmão latente”, pois se materializa na experiência de leitura. Já em “Ressonância”, esse processo da linguagem transcende a força das palavras para se tornar, também, memória:

Enquanto posso pensar,
escrevofalo.
Tiro as amarras dos nervos
e as sustento em fogo brando.
Poefaço
minhas histórias,
dou aos meus netos, Zumbi
com seus feitos de bravura e glória.
Enquanto posso pensar,
falescrevo,
reencarnando Mandela,
pintando uma nova tela
para enfeitar os peitos dos meninos. […]

Ainda tomando os versos acima por base, é interessante observar que o fazer poético da autora também está na recriação da linguagem por meio de neologismos — e isso não ocorre apenas no poema que você acabou de ler, leitora. É sabido que nem sempre a língua é capaz de dar conta dos processos que se passam dentro de nós. Nos poemas de Geni, faz-se necessário reelaborar a linguagem para abarcar e externar ao mundo o seu processo poético.

Em Poemas do Regresso, o tempo permeia praticamente todos os versos. É curioso e interessante observar a maneira múltipla como a temporalidade se desenvolve ao longo do livro. “Sobre o Tempo” traz uma percepção sobre a agilidade da existência ao retratar três momentos da vida do eu lírico: infância, vida adulta e velhice. Em paralelo, o tempo no poema vem carregado dos afetos registrados pelos detalhes característicos das pessoas amadas. Essa dualidade envolvendo o tempo é nítida em “Tardia” e em tantos outros poemas.

Além do tempo, há mais um aspecto pulsante na obra: a liberdade. Não me refiro a uma liberdade formal — ainda que esteja estabelecida nesse livro de poemas –, mas a uma liberdade de existir e resistir do sujeito negro. Demais a mais, nota-se que nos versos relacionados a isso está latente uma necessidade de recriação tanto do agora quanto do que já passou: no poema “Oração da rebeldia”, deseja-se uma libertação da herança escravocrata, ao passo que em “Correspondência” há um “peito arfante de liberdade e consciência”. Dos poemas dedicados a essa temática, destaco também “Nenhum vivente dorme eternamente”, pois retrata os nossos movimentos de luta, a nossa abolição como a autora revela:

Nos despertamos,
refizemos nossos corpos,
restauramos nosso peito,
do coração arrancamos as safenas,
e fazemos hoje a verdadeira abolição.

Poemas do Regresso não marca apenas o retorno de Geni ao cenário poético, conforme mencionei acima; mas também o nosso regresso ao seu universo lírico — do qual tanto precisamos nesses tempos tão conturbados. A composição da autora na obra que venho resenhando até aqui é rica e envolvente, e a minha análise não deu conta de abordá-la por completo — confesso que acredito que nenhuma análise conseguirá isso, pois todos os poemas são densos e, a cada nova leitura, novas possibilidades podem ser extraídas. Aos que não conhecem o trabalho de Geni, recomendo fortemente que façam a leitura do livro, pois se trata de uma autora fundamental; aos que já conhecem, também recomendo, pois é tempo de regressarmos à sua poética. Digo isso, pois Geni é, de acordo com o seu poema “Arquiteta”, sondadora do mundo, aquela que tece palavras e reinventa o paraíso.

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