Dona Ivone Lara: a musa da canção brasileira

Katia Santos. Dona Ivone Lara – a dona da melodia. Rio de Janeiro, 2010.

No livro Dona Ivone Lara – a dona da melodia, a pesquisadora, escritora e tradutora Katia Santos constrói uma narrativa que delineia a vida e a obra daquela que hoje conhecemos também como a primeira dama do samba. Trata-se de uma narrativa que se inicia na infância de Yvonne da Silva Lara – grafia de batismo –, início dos anos 1920, e que retrata, por exemplo, sua entrada no Colégio Orsina da Fonseca, bem como a perda precoce de seus pais. A obra ainda acompanha a sua busca por estabilidade financeira (momento em que conhecemos a Yvonne Lara, enfermeira e assistente social) e chega até os dias de grande sucesso musical desta figura, agora conhecida como Dona Ivone Lara – uma “mulher multifacetada”, como afirma a escritora; dias de reconhecimento nacional e internacional de seu trabalho como melodista, compositora e intérprete.

Ao longo do livro nos deparamos com muitos depoimentos, tanto da própria Dona Ivone, quanto de pessoas que foram muito próximas dela ­– como é o caso de seu grande parceiro, Delcio Carvalho, a quem Santos dedicou um capítulo desta obra, tamanha sua importância na história da compositora –, o que propicia um ambiente muito mais atrativo para nossa imersão, enquanto leitoras, na narrativa. A autora sai do lugar de narradora observadora que retrata, de certa distância, os fatos e acontecimentos, para dar espaço à voz do sujeito acerca de quem se retratam os ocorridos; é dizer, em muitos momentos nos deparamos com a voz da Dona Ivone apresentando-nos a sua perspectiva sobre dado fato, o que instiga a nossa leitura e análise.

A partir desta figura, sob a ótica de Santos, adentramos no universo do samba e, concomitantemente, na história da cidade do Rio de Janeiro e do Brasil, já que, como aponta a pesquisadora, a vida de Dona Ivone é atravessada por essas histórias. Basta, por exemplo, pensarmos em que contexto histórico-social a música erudita deu-se na vida da sambista: pouco antes de seu nascimento, o Rio de Janeiro passava por reformas urbanísticas propostas pelo então prefeito Pereira Passos e que tinham como inspiração as reformas parisienses do século XIX; estas reformas faziam parte de um projeto de europeização da sociedade brasileira e se estenderiam a outras áreas, como a educação, através do ensino de música dita “erudita” – lido e disseminado como componente representativo da alta cultura. A então menina Yvonne viveria de perto e na pele este processo de branqueamento cultural, já que ela fazia parte do orfeão, no Colégio Orsina, que foi uma iniciativa do maestro Villa-Lobos para a implementação da música erudita no ensino brasileiro. Para evidenciar este processo de branqueamento, Santos expõe trecho do relatório “O ensino popular da música no Brasil: o ensino da música e do canto orfeônico nas escolas”, em que o maestro, acima citado, apresentava seu projeto:

“A escola no Brasil, que é o convívio de elementos descendentes de raças diversas, onde se aprendem os bons ensinamentos dos mestres, e, também, às vezes, certos hábitos e costumes de alunos rebeldes, geralmente influenciados pelo meio da sua vida doméstica ou por hereditariedade, deve ser o templo para se desenvolver a alma, cultivar amor à beleza, compreender a fé […] [As demonstrações cívico-orfeônicas] visam tão somente provar o progresso cívico das escolas, pois que a gente, talvez em consequência de razões raciais, de clima, de meio ou dos poucos séculos da existência do Brasil, ainda não compreende a importância da disciplina coletiva dos homens.”

Nesta parte da narrativa, somos levadas a refletir sobre o epistemicídio que, segundo a filósofa Sueli Carneiro, é a “deslegitimação dos saberes dos negros sobre si mesmos e sobre o mundo, pela desvalorização, ou negação ou ocultamento das contribuições do Continente Africano ao patrimônio cultural da humanidade, pela indução ou promoção do embranquecimento cultural” e como esse mecanismo político agiu tão violentamente nos corpos negros. Ensinava-se música “erudita” porque o samba é originalmente preto e símbolo representante da cultura popular; assim, dentro de um processo de desqualificação da produção negro-brasileira, negou-se a esta população o lugar que lhe é devido na consolidação da identidade nacional. Isto explica, por exemplo, o porquê que muitos, ainda hoje, negarem ao grande Cartola – como negam a Carolina Maria de Jesus, na literatura – o lugar de músico representante da MPB; título que é dado a nomes como Caetano Veloso e Chico Buarque, sob a justificativa de que estes têm a instrução devida para carregar este título. É interessante que a pesquisadora traz, na contramão do que dizem e pensam os intelectuais que excluem sujeitos como Cartola, uma fala de Chico Buarque, justamente enaltecendo não apenas Cartola, mas também outro singular representante da MPB, Nelson Cavaquinho: “As músicas eram muito sofisticadas. As músicas de Nelson Cavaquinho e as de Cartola são de uma grande sofisticação. Melódica, harmônica”. Bom, esses intelectuais que se entendam com Chico.

De modo curioso, mas não surpreendente, percebo que o olhar para a primeira dama do samba muda quando se tem conhecimento sobre seu contato com a música “erudita” – como se este ensino, único e exclusivamente, tivesse formado a persona Dona Ivone Lara, negando, desse modo, as influências musicais que teve desde a infância; afinal, além das canções que ouvia no rádio, não se pode esquecer que ela é – no presente, porque ela vive no seu legado e no imaginário social – filha de pai violinista e mãe crooner de rancho carnavalesco. E então, quando indagada, em 2004, se ter estudado com Lucília Villa-Lobos teria sido importante para sua formação, ela respondeu: “Não exatamente, pois eu já era apaixonada pela música, por ter crescido em um meio musical. Mas D. Lucília foi quem fortaleceu essa minha paixão e também quem me deu disciplina”. Percebemos que Dona Ivone reconhece o lugar da música “erudita” em sua vida, mas não abre mão de iniciar sua resposta voltando às suas origens; talvez isso seja uma maneira de dizer que, bem antes de vivenciar o canto orfeônico, ela já era familiarizada com a canção popular – e sua voz, sua música e suas letras estavam destinadas a representar esta camada.

É fundamental discutir a instrumentalização como aval de denominação de quem é ou não representante da MPB ou de quem é ou não escritor, posto que vivemos sob o jugo de um sistema absurdamente desigual, no qual a educação não atinge a totalidade brasileira, ou seja, muitos brasileiros tiveram e têm o direito à educação tolhido. Ciente disto, a branquitude (que, na verdade, é quem alimenta esta estrutura), sem saber lidar com o corpo negro – que, com pouca ou nenhuma instrução sistematizada, é capaz de construir imagens metafóricas belíssimas, tais quais os versos “Preste atenção, o mundo é um moinho/ Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos”, do Cartola – versos que ficarão para sempre na história da música brasileira –, começa a lançar mão de mecanismos (a instrução sistematizada é um deles) que impedem esses corpos de ocupar determinados lugares, naturalizados como pertencentes à branquitude. Dentro deste contexto, Dona Ivone é uma exceção – jamais trataremos o acesso a diretos básicos como privilégios –, o que nos leva, imediatamente, à afirmação e pergunta-provocação feita por Conceição Evaristo: “A exceção confirma a regra. Quando nós somos exceções em determinados espaços, podemos até nos sentir rejubilados, mas temos de perguntar que regras são essas na sociedade brasileira, através das quais os negros são exceções” – lembrando que Dona Ivone entrou, aos nove anos, no colégio municipal por intermédio da patroa de sua mãe, que trabalhava lá.

No recorte feito por Santos da trajetória de Dona Ivone, percebemos como a interseccionalidade se constitui no íntimo das opressões – porque, no universo do samba, a dona da melodia teve que lidar diretamente com o machismo, tendo em vista que este universo era ocupado majoritariamente por homens, naquela época, negros. Um dos fundadores da escola do coração de Dona Ivone, o Império Serrano, foi o mestre Fuleiro, seu primo que assinou algumas composições “da prima moça-de-família – que não podia estampar seu próprio nome nas músicas que compunha e queria ver apresentadas nos terreiros de samba – para que a tia não descobrisse e para não ferir o ébrio dos machos organizadores e concorrentes”. Esse substantivo composto usado por Santos, “prima moça-de-família”, evidencia muito um dos grandes ideais patriarcalistas – que são impostos às mulheres até hoje –, que tem por finalidade enquadrar o corpo feminino naquilo que eles consideram padrão comportamental. No contexto da dona da melodia, escrever e assinar sambas estava completamente fora do padrão pré-estabelecido, mas ela era subversão e sabia disso. Outro ocorrido que nos leva a pensar sobre a interseccionalidade é o fato de ela não ter integrado a ala de compositores do Império, mesmo fazendo parte de um grande acontecimento na história do carnaval carioca: “em 1965, foi a primeira mulher compositora de um samba-enredo para o desfile de uma escola de samba do grupo especial. O samba ‘Os cinco bailes da história do Rio de Janeiro’ foi feito em parceria com ninguém menos que Silas de Oliveira, um dos maiores compositores do Império Serrano, e Bacalhau, outro importante compositor” Mais adiante, a pesquisadora reflete sobre esse lugar inocupado:

“Se Dona Ivone Lara tivesse feito parte da ala de compositores, teria sido muito significativo. Basta lembrarmos que ainda hoje as mulheres compositoras das escolas de samba no Rio de Janeiro continuam a ser tratadas da mesma forma, subjugadas em suas escolas. Deve haver muitas histórias de injustiças cometidas contra mulheres compositoras no mundo do samba. Podemos falar de injustiça mesmo no caso de Dona Ivone, que dava seus sambas para o primo Fuleiro apresentar nas reuniões e espaços de samba como se fossem seus, para que fossem aceitos ou para driblar a tia ‘linha dura’. O fato de Fuleiro ter permissão não torna a situação menos opressiva no geral.”

A consciência desta subversão ficou explícita em uma fala de Dona Ivone presente no livro Nasci para sonhar e cantar – Dona Ivone Lara: a mulher do samba, da jornalista Mila Burns:

“Uma que eu adoro é a Lecy Brandão. Sempre gostei muito das melodias dela, mas acho que ela é muito prejudicada, porque o preconceito com as mulheres continua. Fico triste em ver uma pessoa como ela, que é reconhecida, que todo mundo respeita, não conseguir emplacar um samba-enredo […] Ela faz um samba bonito, chega perto de ganhar, mas na hora é sempre um homem que ganha, mesmo que o samba seja pior.”

Dona Ivone Lara e Delcio Carvalho, “essa parceria quase mediúnica, como gostam de dizer ambos”, escreveu Santos, compuseram a canção que, para mim, é uma das mais belas canções populares, “Sonho meu”. Foi esta canção, em que a voz cancional está tentando lidar com a sensação de falta de um outro – “Sonho meu, sonho meu/ Vá buscar quem mora longe/ Sonho meu” –, que, ao ser gravada por Maria Bethânia e Gal Costa (Álibi, 1978), projetou a dona da melodia na Zona Sul do Rio de Janeiro, e também “foi por essa canção que Dona Ivone Lara mais tarde receberia o prêmio Sharp de melhor música do ano. Sua música fora eleita ‘a música mais bonita de 1978’, nas palavras de Dona Ivone, e até então esse era o mais importante prêmio de sua carreira”. Não é para menos: a letra e a melodia desta canção vêm carregadas de uma leveza que faz com que nós, ouvintes, imerjamos de corpo e alma, absolutamente entregues e próximos da voz que ressoa nesta narrativa.

Finalmente, chegamos na persona Ivone Lara que inspirou/inspira tantos poetas da música popular. Se na metacanção “Nas asas da canção”, parceria com o grande Nelson Sargento, ela evocava a musa para compor um poema de amor, nesta altura do livro e da vida ela se transfigura nesse ser mitológico, inspirando nomes como Martinho da Vila, Nei Lopes, o pianista Leandro Braga, Arlindo Cruz (este que, em parceria com Sombrinha, escreveu: “Tentando esquecer os amargos da vida/ Um dia saí e consegui disfarçar minha solidão/ Pois descobri algo mais que a inspiração/ Quando ouvi Ivone cantar e/ Vi toda poesia pairar no ar”). Quando Dona Ivone atinge esse lugar máximo de inspiração, ela nos mostra mais uma vez o quanto é subversão, porque ela é um “corpo-mulher-negra”, como diria Conceição Evaristo, que ousa cantar e escrever a sua subjetividade, uma subjetividade negra e que foi/é negada justamente para manter os corpos negros coisificados. Nas palavras de Santos:

“Dona Ivone Lara diz: ‘Eu me faço respeitar’. E há que se ter respeito por uma pessoa que sempre encontrou o equilíbrio em meio ao caos, em meio às fatalidades da vida. Estamos todos felizes porque tudo deu certo em sua vida. Mas quando me dou conta de que o bolo cresceu lindo e maravilhoso apesar da receita apresentada pelas circunstâncias, uma receita fadada a gerar bolo solado, há que se respeitar essa mulher, cidadã negra carioca brasileira que Yvone Lara da Costa”.

Já fechando o livro, Katia Santos fala sobre 21° Prêmio da Música Brasileira, em 2010; uma premiação em vida, como tem que ser – nas assertivas palavras da pesquisadora. Ela nos relata a tristeza que foi não ter conseguido um convite para este grande evento; ainda assim, compareceu ao Theatro Municipal, porque “queria sentir o clima de tão importante noite para Dona Ivone e para o samba carioca”, ainda tirou muitas fotos para ter essa memória materializada. Katia, uma grande coletora de texto-apresentação da carreira de Dona Ivone, nos brinda com o texto que vinha no convite do evento, este que, certamente, encheu o coração da nossa musa de amor e orgulho:

“a homenageada [Dona Ivone Lara]

A importância de Dona Ivone no cenário musical brasileiro não está no fato de ela ser a primeira mulher a assinar um samba-enredo. Dona Ivone deu categoria às baianas das escolas, sempre esteve na linha de frente do samba, do partido alto, referendou novos sambistas, é representante legítima da mulher brasileira que tem raça, graça, musicalidade, fibra e alegria. Hoje, Dona Ivone Lara Não é só a nossa homenageada, ela é, principalmente, o nosso prêmio. O Prêmio da Música Brasileira.”

Viva Dona Ivone Lara, o nosso prêmio da canção brasileira!

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