Se achegue, minha irmã!

Audre Lorde. Sou sua irmã. Organização e apresentação de Djamila Ribeiro; tradução de Stephanie Borges. Ubu, 2020.

Depois de algum tempo vivenciando o caos e as mazelas de um ano pandêmico, retorno para compartilhar com vocês essa obra magnífica que muito tem a contribuir para o fortalecimento das nossas existências enquanto mulheres pretas. Sou sua irmã, de Audre Lorde – escritora, ativista, poeta e tantas outras atribuições –, traz uma série de temas que perpassam as nossas trajetórias e ajudam-nos a encontrar um lugar no mundo. Estamos fragmentadas, deslocadas e sensibilizadas pelos últimos acontecimentos, até mesmo pelos que ainda virão; somos convidadas a olhar esses fragmentos, observar o todo e compreender que cada um deles tem um impacto na nossa identidade. É tempo de reconstrução; por isso, se achegue, minha irmã!

Para firmar essa conversa, gostaria de destacar um dos pontos principais da obra: a sexualidade. Eu, Audre Lorde, somos mulheres lésbicas e negras. Não há como descolar isso da nossa subjetividade. Reafirmo essas identidades pela falta de visibilidade e preconceitos introjetados não só na sociedade, mas dentro dos movimentos feminista, negro, panafricanista, etc. Em Sou sua irmã, a autora utiliza termos como homofobia e heterossexismo – que é a crença na superioridade da heterossexualidade como um padrão de relação afetiva. É justamente sobre isso que precisamos dialogar. Quão conscientes e engajadas na garantia de direitos das mulheres lésbicas estamos? Conceitos como maternagem lésbica, saúde, invisibilidade são pautas constantes nas suas discussões? Como a própria autora afirma: não existe hierarquia de opressão. Ou estamos juntas na luta pela vida e bem estar integral da mulher negra e lésbica, ou de nada vale a luta. Sabemos que alguns movimentos tentam pintar a lesbianidade como uma maldição e fomentam uma série de estereótipos; não há nada de revolucionário e descolonial nisso, muito pelo contrário. Audre adverte:

“Sou uma lésbica negra feminista guerreira poeta fazendo o meu trabalho, e parte do meu trabalho é perguntar: vocês estão fazendo seu trabalho?”

O tempo de (des)(re)construção que propus no início permanece: é sobre esse exercício de rever e refletir sobre o seu lugar no mundo; é para isso que a escritora nos convida.

“Não é fácil para mim falar com vocês aqui como uma feminista negra lésbica e admitir que algumas formas como me identifico dificultam que me escutem. Mas nos encontrarmos em meio às diferenças exige flexibilidade conjunta, e, enquanto vocês não forem capazes de me ouvir como feminista negra lésbica, nossas forças não estarão realmente conectadas”

Entre os múltiplos aspectos que ela traz em sua obra, deparamo-nos com uma poetisa grandiosa que diz trazer tudo o que é, caso contrário não traz nada, ou nada de valor, pois isso significa que sua essência foi omitida. É potente observar como a poesia moldou a vida de Audre Lorde e foi uma ferramenta importante para o seu processo de sobrevivência. Penso que sua escrita prova, mais uma vez, o quanto a poesia é uma forma de provocar a lógica instaurada. Poesia preta e sapatão é a própria subversão. A poesia motiva, emociona, dá forma àquilo que somos e sentimos; essa é uma das faces poéticas mais cultivadas na obra. Audre fala sobre a importância de amarmos o poder de nossos sentimentos e fazer uso deles para o bem próprio e coletivo. Ela nos encoraja a escrever, sobretudo as mulheres lésbicas e negras; reforça a necessidade de produzir versos contra a lesbofobia e ressalta que quanto mais houver mulheres pretas e sapatões produzindo novas narrativas, mais rápido a gente mudará a nossa realidade; mais rápido a gente mudará o mundo.

A poética da autora aparece para falar das coisas que sangram, também. Durante quatorze anos, Audre Lorde lutou contra um câncer; dentre todas as lutas que a ativista já protagonizava, essa foi mais uma. Em 1980, ela escreveu um livro de não-ficção chamado The Cancer Journals, que descreve de forma detalhada como a doença afetou sua vida e emoções. Nessa obra, é possível encontrar um capítulo que trata dessa jornada. É importante olharmos para uma das faces mais dolorosas justamente para observar como Lorde integrou essa experiência à sua identidade. Essa batalha contra a doença surge como mola propulsora para grande parte do seu trabalho e aparece como um aspecto importante na compreensão das múltiplas subjetividades da autora. De fato, a luta muda a vida – Audre é a prova disso!

Boa parte da escrita de Audre Lorde, não só em Sou sua irmã, como também em outras obras que serão citadas à frente, surge a partir dos desajustes que ela sente em relação à sociedade. Irmã Outsider, obra já resenhada aqui no blog LetrasPretas, é mais um referencial teórico sobre as lutas antfirracistas, LGBTQI+ e do feminismo negro. Também é o começo de toda a teoria traçada por ela nos últimos anos, que nos convida a refletir a partir de uma outra ótica, aquela que não segue os padrões impostos. É interessante como todas essas obras estão muito bem amarradas e nos mostram que a nossa luta incorpora várias facetas da nossa subjetividade. A autora bate muito na tecla da interseccionalidade e prova o quanto ela serve como um ponto de apoio na formação das relações de poder. A interseccionalidade fala sobre reconhecer a si mesma e a outra em suas diferenças.

Muitas mãos trabalharam organizando essa obra; uma delas é Stephanie Borges, mulher negra, escritora e tradutora dessas e de outros escritos de Audre Lorde. Sou sua irmã é um livro importantíssimo para os tempos difíceis em que vivemos, um verdadeiro antídoto literário contra todo ódio e opressão. Somos negras, lésbicas, bissexuais, transexuais, múltiplas – e somos irmãs!

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