“Pois é, Carolina, as misérias dos pobres do mundo inteiro se parecem como irmãs.”

Françoise Ega. Cartas a uma negra. Trad. Vinícius Carneiro e Mathilde Moaty. Todavia, 2021.

Françoise Ega é uma mulher negra de origem antilhana que reside em Marselha, na França. Escritora e ativista, a martinicana trabalhou durante anos como faxineira na casa dos europeus bem sucedidos. Em vida, Françoise publicou o livro: Le temps des madras: récit de la martinique, e teve dois livros publicados postumamente. Suas obras se comunicam diretamente com as mulheres antilhanas que residiam na França em sua época e pretendiam dar voz a esta realidade.

Cartas a uma negra é um livro de encontros, desabafos e inspirações. O livro começa de maneira espontânea: Françoise tinha por hábito ler a revista Paris Match no ônibus, a caminho do trabalho, e foi num desses momentos que ela conheceu Carolina e se identificou com sua vivência como escritora e faxineira.

Carolina Maria de Jesus foi o despertar de Françoise para sua vivência como escritora. Ainda que nunca tivesse lido Quarto de Despejo, a escritora martinicana tinha Carolina como sua musa; a conexão foi instantânea. A narrativa do livro é, como próprio título propõe, constituída por uma série de cartas a Carolina que nunca chegaram a ser enviadas. É um livro sobre o cotidiano, sobre os filhos, sobre o marido, mas principalmente sobre sua experiência como faxineira e escritora. Françoise escrevia nos momentos de fuga e era movida por uma necessidade interior de relatar sua experiência; de compreender, como ela mesmo colocava, até onde chegará a estupidez humana.

“Entretanto eu deveria ter relido o que escrevi enquanto descascava os legumes.”

Acredito que a particularidade do texto reside justamente na construção de um problema universal e atemporal: o tratamento desproporcional de domésticas negras em comparação às brancas. Françoise falava não apenas por ela, mas por todas as suas colegas de profissão que trabalham num regime análogo à escravidão. Existe uma força que Ega manifesta desde suas primeiras cartas: a vontade de persistir e recomeçar; sua escrita não precisa propor grandes detalhamentos para que seja fácil compreender seus desejos, sua posição social, seu trabalho incessante, sua persistência e, é claro, sua atitude perante as injustiças vividas.

“As que, como eu e você, não conhecem nada além de um futuro incerto, mas que são livres, que têm a possibilidade de se rebelar, de recusar a condição de escrava, são abençoadas.”

Na França de 1960 ocorria um movimento que Françoise persistia em chamar de tráfico negreiro novo: os barcos chegavam lotados de antilhanos em busca de empregos e condições melhores, mas que se acomodavam em empregos subalternos. A martinicana foi, desde o início, uma porta voz para as mulheres de sua pátria, acolhendo e ajudando diversas mulheres por onde passava. É interessante perceber, ao longo do livro, a sua evolução como “justiceira social” e notar que, posteriormente, ela assumiu a liderança do movimento de direitos dos migrantes caribenhos na França.

“Sempre tem alguém com o meu endereço para repassar às antilhanas em caso de contratempo.”

Percebo, que ao longo da narrativa, Françoise não possuía uma disponibilidade para dedicar-se ou manter uma consistência de escrita; sua resistência ao posicionar-se como escritora pode ser observada através das comparações com outros escritores.

Entre patroas desequilibradas, relacionamentos familiares e empregos que pareciam emboscadas, a história equilibra a realidade de maneira muito sutil; e o que mais me encantou foi perceber a maneira como a resistência da autora aparecia, mesmo nas pequenas coisas.

As cartas destinadas a Carolina duraram dois anos, mas a sensação é de que a história se estendeu por muito mais tempo. A narrativa envolve o leitor ao levantar a discussão do racismo e da exploração do trabalho no século XX, e o cruzamento entre Françoise e Carolina nos leva a uma história única: à da afirmação como uma pessoa digna de se posicionar, na literatura e na vida.

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