A luta quilombola é feminina

Selma dos Santos Dealdina (org.). Mulheres quilombolas: territórios de existências negras femininas. Jandaíra, 2020.

Olá, leitora! Seja bem-vinda a mais uma leitura quinzenal. Iniciaremos nossa conversa com a seguinte pergunta: Você conhece uma mulher quilombola ou sabe o que isso significa? A obra Mulheres Quilombolas: territórios de existências negras femininas responde: “Ser mulher quilombola é sinônimo de resistência. Significa carregar na identidade, no corpo, no cuidado com a família, na lida no campo ou na agitação do urbano uma história ancestral de muita dignidade”, afirma Nilma Lino Gomes, uma das mulheres que compõem esse livro.

Trata-se de uma luta que atravessa séculos: além de deterem os saberes tradicionais, rezas e medicina tradicional, ainda atuam fortemente na organização social, participação política, garantia de direitos e tantos outros aspectos que perpassam a vida de mulheres negras e quilombolas. Essa obra, por meio de dezoito mulheres de diversas comunidades quilombolas, se apresenta como uma ferramenta essencial para compreendermos a trajetória, identidades e especificidades dessas mulheres. Anas, Marias, Déboras, Sandras, Nilces, Rejanes contam as experiências que perpassam o Quilombo, as universidades, espaços de poder e arte. Há um compromisso da escrita em mostrar a multiplicidade de vivências quilombolas e preservar uma cultura distinta da majoritária, mantendo uma conexão com a terra onde, mais do que uma relação de posse, existe a identificação e o pertencimento. Grande parte dessas mulheres exerce um papel de liderança nas comunidades, o que intensifica esse respeito pelo território, além de provocar reflexões sobre seus processos, transmissão de conhecimento e coletividade feminina, assim como ancestralidade.

Gostaria de compartilhar com você, leitora, dois pontos que chamaram muito a minha atenção durante a leitura. O primeiro diz respeito a um conceito muito evocado e pensado no blog LetrasPretas: a interseccionalidade. Esse termo nos permite compreender melhor as desigualdades e sobreposições das opressões existentes em nossa sociedade. Desse modo, é possível entender que existem múltiplos sistemas de opressão – como raça, gênero e classe. Em Mulheres Quilombolas: territórios de existências negras femininas, essa palavra é utilizada o tempo todo, justamente para mostrar que as opressões que as mulheres negras e quilombolas sofrem são diferentes das que atravessam muitas mulheres negras. Apenas o feminismo negro não consegue abarcar essas especificidades, e isso não nos separa; muito pelo contrário, nos faz entender as raízes da opressão e, desse modo, lutar contra ela.

O segundo ponto complementa a questão da interseccionalidade, porém faz um recorte específico sobre o quilombo. Em boa parte da obra, é possível observar o quanto as comunidades vivem um embate político pelo direito à terra. Desde a época em que nossas ancestrais foram escravizadas até os dias de hoje, essas mulheres tiveram um papel fundamental nas lutas de resistência, regularização e manutenção de territórios. Assim como os indígenas, quilombolas sofrem até hoje com a ação de fazendeiros, garimpeiros, empresas, órgãos do governo e outros. A reivindicação é para que o processo de regularização latifundiária seja mais ágil e não fomente o aumento de conflitos. Para tanto, existem também alguns avanços que trazem reconhecimento a um povo historicamente excluído – por exemplo, o decreto 4887, que objetiva empoderar mulheres e homens que resistem nesses espaços de territorialidade, ancestralidade e identidade quilombola.

Mais exemplos desse protagonismo das mulheres quilombolas se dá por meio de articulações como a CONAQ (Coordenadoria Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), uma organização com mais de vinte anos de existência que segue na luta diária pela demarcação dos territórios e sobrevivência do povo quilombola, enfrentando o racismo estrutural, institucional, social e ambiental para que os direitos sejam garantidos. Em um capítulo da obra, a intelectual, quilombola e pertencente ao povo Kalunga, Vercilene Francisco Dias, discute acerca dos critérios jurídicos de reconhecimento e pertencimento à comunidade. Ela inicia a discussão pontuando o quanto o universo jurídico não tem o hábito de discutir as questões quilombolas e nos dá uma verdadeira aula sobre os avanços, retrocessos, aquilo que precisa ser melhorado, as falhas e as possibilidades, fazendo um recorte específico para a sua comunidade Kalunga.

Mulheres Quilombolas: territórios de existências negras femininas é uma obra atual e necessária, em que somos convidadas e desenvolver um olhar mais sensível às questões quilombolas, ouvir essas mulheres e aprender toda a tradição, ancestralidade e saberes que elas têm a nos ensinar. É uma honra que essas mulheres compartilhem conosco suas trajetórias e experiências de vida; que, nesse momento tão delicado que atravessamos, essa seja mais uma fonte de vida e resistência.

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