Resistir para poder ser negra

Alessandra Devulsky. Colorismo. Jandaíra, 2021.

Colorismo, lançado este ano pela editora Jandaíra, faz parte da série “Feminismos Plurais”, coleção organizada pela filósofa Djamila Ribeiro. O livro apresenta à leitora o grande debate sobre o colorismo e o modo como ele opera na vida de pessoas negras – principalmente, de nós, negras brasileiras. Aliás, acho importante destacar que a autora desta obra, Alessandra Devulsky, possui um currículo extenso que inclui atividades internacionais: formada em direito, a advogada dedicou seu mestrado e seu doutorado às áreas de Direito Econômico, Político e Financeiro pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Universidade de São Paulo; além disso, é professora no programa de mestrado em Direito da Universidade do Quebec, em Montreal, e é diretora-geral da Corporation de développement communautaire de Côtedes-Neiges, no Canadá.

A leitura desse livro é fundamental para quem procura um guia para essa “confusão” que é a classificação racial, o que pode ser exemplificado pela classificação de pessoas de pele clara ou mestiças como “pardas” – uma nomenclatura totalmente errônea. E é por esse motivo que o colorismo afeta mulheres e homens negros como consequência do projeto de extinção da negritude, que seria o apagamento de pessoas negras através da mestiçagem.

Dividido em quatro capítulos, o livro começa inserindo a leitora na história da construção da identidade negra no Brasil, no âmbito de um processo de miscigenação foi muito forte em decorrência da grande mistura de negros, indígenas e brancos, o que dificultava a classificação racial. A maioria da população brasileira é negra e essa classificação também inclui pessoas “pardas”. O colorismo afeta as pessoas negras de formas diferenciadas: no caso das pessoas de pele negra mais clara, isso começa a afetar suas vidas no momento em que não conseguem compreender onde se encaixam e qual é a sua origem, entre outras questões; já as pessoas de pele escura sofrem os efeitos da racialização e a discriminação por sua cor escura, por exemplo. Além da oposição – a pele mais clara “contra” a mais escura –, temos também a diferenciação pelo gênero. A obra aponta que o nosso primeiro contato com o colorismo é no início da nossa vida, na infância, como ilustra a citação abaixo:

“O primeiro contato de uma criança racializada com o racismo é traumático, porque a natureza da apreensão é social, ou seja, ela não se dá de maneira objetiva, programada ou de modo ritualístico.”

A pesquisa de Alessandra também aponta que a escravidão e o processo colonial foram os principais motivos para a hierarquização racial, e é por esse motivo que crescemos não sabendo valorizar nossa negritude, pois a norma é ser branco. Desde criança, pessoas negras lutam para se encaixar numa norma que não as reconhece e, até que isso seja entendido, traumas e mais traumas se acumulam.

No decorrer do livro, Alessandra Devulsky analisa e debate diversos aspectos do colorismo que nos afetam. No capítulo dois, a autora analisa a competição entre negros de pele clara e negros de pele escura e como isso os atinge de diferentes formas, seja na vida profissional, seja na pessoal; aliás, esse assunto tem sido muito discutido nas redes sociais. A forma de tratamento é um dos principais fatores para essa distinção: os negros de pele clara são mais aceitos em diversas áreas da sociedade pelos brancos, que consideram sua aparência mais agradável; por outro lado, os negros de pele mais escura são vistos com repulsa, não só pela pele mais escura, mas também por seus traços – como cabelos crespos, lábios grossos e outras características associadas a nós.

No terceiro capítulo, a autora nos apresenta a hierarquização que as desigualdades raciais trouxeram para o mercado de trabalho: o corpo negro mais trabalha do que ganha e, mesmo com formação especializada, seus ganhos não ultrapassam os do corpo branco, por conta da desigualdade econômica. Essa hierarquização é ainda mais sofrida para nós, mulheres, conforme aponta a autora. E isso pode ser percebido pelo fato de que as mulheres não racializadas recebem mais do que nós, negras, mesmo tendo a mesma formação.

Por fim, o quarto e último capítulo aborda a questão do feminismo negro. Nessa parte, Alessandra evidencia como o feminismo negro levanta a questão do colorismo; ela comenta, como nós, negras, precisamos ultrapassar grandes barreiras para sairmos de um lugar invisível em que nos colocam, e afirma que também podemos ser produtoras de conhecimento, dignas de afeto, acolhimento e respeito. Pois sabemos que ser mulher e ser negra é doloroso, principalmente em decorrência da hipersexualização, uma das ferramentas do colorismo mais usadas contra nós e que afeta nossas vidas politicamente e afetivamente.

Então, por que compreender o colorismo é algo urgente? Porque nos permite restaurar a nossa conexão cultural e nossas relações entre pessoas negras. Sendo assim, indico esse livro às mulheres (sejam brancas, sejam negras) que não percebem o colorismo como uma questão importante para nossa sociedade: apenas assim, nos conscientizamos do porquê de termos que resistir para podermos ser negras.

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