Quando cruzei com Carolina Maria de Jesus…

Era uma tarde ensolarada de um domingo cheio de trabalhos pendentes, quando me mandaram um convite para escrever um relato sobre a minha experiência com o mestrado. Na mesma hora aceitei, pois já fazia um bom tempo que eu queria escrever sobre algo que ficou latente durante todo esse processo: a minha forte identificação com o objeto da minha pesquisa, a obra de Carolina Maria de Jesus. Muitas foram as pessoas que me ajudaram na trajetória do meu trabalho com esta autora, e por gratidão e homenagem a elas, quero citá-las nesse relato.

Ingressei na UERJ pelo sistema de cotas em janeiro de 2014. Sou negra, morei em favelas cariocas durante boa parte da minha vida e a oportunidade de ingressar em uma universidade pública sempre foi um sonho muito distante. Quando de fato me vi com uma matrícula garantida naquela universidade mergulhei de cabeça no que parecia ser a única chance real de melhorar de vida através dos estudos, e no meu caso isso significava um dia poder sair da favela e ir para uma casa melhor, um bairro mais seguro, viver com mais dignidade. Dediquei-me totalmente aos estudos e em 2019 consegui a tão sonhada vaga no mestrado pela mesma universidade. Foi quando me deparei com um problema inesperado: eu precisava mudar o tema da minha pesquisa. Assim que entrei no mestrado frequentei uma disciplina ministrada pelo professor Henrique Marques Samyn com foco no estudo da literatura negro-brasileira, e ingressei no LetrasPretas. O contato com a obra produzida por escritores negros, os calorosos debates sobre a questão racial na literatura e o contato com outras pesquisadoras e estudantes negras foi introduzindo em mim um questionamento em relação à relevância da minha pesquisa. Foi em um curso que ministrei junto a outras integrantes do LetrasPretas que de fato descobri a vontade de trabalhar com a escritora em questão. Lembro que ao mostrar um slide em que aparecia uma foto de Carolina Maria de Jesus com um lenço na cabeça, me assustei com o quanto ela me lembrava a minha avó. O olhar marcado pelas duras experiências da vida, o fato de ter migrado para uma grande cidade em busca de fugir da fome, tudo ali se parecia com a história de uma parte da minha família. Inclusive o fato de que assim como essa escritora, éramos descendes de escravizados. Pouco tempo depois conversei com a minha orientadora, e ela disse algo que só fui entender depois: as questões em torno da literatura muitas vezes se tornam existenciais para o pesquisador.

Talvez levada pelo encantamento com a primeira obra de Carolina, escolhi Quarto de Despejo como meu objeto de pesquisa dentro do recorte que eu já pesquisava: a relação entre literatura e cidade. Foi uma escolha com base na forte identificação com a história dela, e eu não esperava o que estava por vir. Diferente de qualquer experiência com a leitura de outras grandes obras que me marcaram, a leitura do diário de Carolina me encheu de uma tristeza profunda. Eu não conseguia separar o universo literário de Quarto de Despejo das muitas experiências que eu havia vivido morando em uma favela. O contexto era diferente, mas ainda assim a identificação com a dor e o sofrimento da narradora me atingiram duramente. Nesse tempo muitas coisas aconteceram, e cada vez mais eu me via com um problema que se tornava gigante: como separar a minha vida, a minha revolta com a situação de pessoas negras nesse país daquele livro? Foi quando meu amigo que também é pesquisador, Luciano Monteiro, viu a urgência de me indicar uma psicóloga, que como eu, era uma pesquisadora negra. Foi árduo o caminho na terapia para descobrir que a trajetória de Carolina Maria de Jesus estava longe de representar dor e sofrimento, mas representava a resistência e a força de muitas mulheres negras na luta para romper com as fronteiras do racismo tão presentes na estrutura social brasileira. A psicóloga que me acompanhou durante alguns meses importantes do mestrado foi fundamental para o resgate da minha saúde mental nesse processo. Na terapia, descobri como as questões do racismo estavam enraizadas dentro de mim, de uma maneira e em uma dimensão das quais eu mesma não tinha noção.

Várias vezes, durante o processo de escrita da minha dissertação, me perguntei o que tinha na cabeça quando resolvi trabalhar com essa autora. Eu me questionava como não tinha percebido o quanto é perigoso mexer com questões tão profundas sobre as questões raciais. Sempre me lembro daquela tarde em que, ao ministrar um curso sobre literatura negro-brasileira, fui impactada por aquela foto. Preciso confessar que ver Carolina com aquele lenço na cabeça, aquele olhar desconfiado que tanto me lembrou a minha avó, me levou a uma visão equivocada dela. Ali naquela foto eu enxerguei a construção da imagem que tentaram impor a ela, de uma mulher negra exótica e digna de comiseração, que despertasse espanto por tentar ocupar um lugar que aparentemente não combinava com ela, o de uma escritora. Fui percebendo o quanto aquela imagem de Carolina me fez despertar para a minha própria baixa autoestima intelectual. Como negra, moradora de favela, a literatura me despertou desde muito cedo na vida um grande encantamento; mas como pesquisadora, em um lugar ainda tão elitizado quanto a pós-graduação, eu ainda me sentia impostora e deslocada.

Depois eu fui percebendo que, apesar das semelhanças, as atitudes de Carolina tinham muito a me ensinar, pois apesar de ela não encontrar lugar, seja na cidade, seja na favela, ela sempre fez questão de se apropriar sem medo do discurso literário, seja como forma de denúncia social, seja como meio de exercer a própria sensibilidade. Eu tive muitas oportunidades, ingressei pelo sistema de cotas, sobrevivi à vida acadêmica com o auxílio de bolsas que financiam pesquisas e pude escolher um caminho, por mais difícil que ele me seja hoje. Ao contrário de mim, a vida nunca ofereceu oportunidades a Carolina; pelo contrário, todas as chances de ser feliz e viver com dignidade lhe foram negadas. Diante disso, o que ela fez foi lutar incansavelmente, seja para cuidar dos filhos, sair da favela ou conquistar seu lugar no espaço literário de um país tão fortemente racista como o nosso. Lembro-me de um texto autobiográfico da autora, denominado “Favela”, em que ela conta como surgiu a favela do Canindé, às margens do rio Tietê. Na época Carolina estava grávida e sem emprego, precisando de um lugar para morar. Sozinha e com o peso da barriga carregou as tábuas para construir o próprio barraco, sem a ajuda de nenhum homem. Em muitos momentos da minha vida, principalmente naqueles em que mais me sinto sozinha, eu me lembro dessa cena, e penso em como ela se sentiu sozinha tantas e tantas vezes.

No entanto, hoje eu sei que a imagem dela não deve representar outra coisa, que não seja força e resistência. Ainda são muitas as questões que preciso aprender com a obra dela e não tem sido fácil. Eu penso em outras pesquisadoras negras que tiveram uma experiência assim com a própria pesquisa. Fico imaginando a urgência que temos em descobrir meios de vencer as barreiras da dor e do trauma ancestral, pois essas são questões muito maiores do que uma experiência individual minha. Quais são os caminhos para pensarmos juntas modos de trilhar pesquisas que contribuam para o debate das questões raciais ao mesmo tempo em que, como pesquisadoras, precisamos lidar com algo tão existencial? O que fazer quando nos exigem um distanciamento do nosso objeto de pesquisa, quando se trata de algo tão próximo à nossa subjetividade? Eu não tenho as respostas. Quando comecei a escrever esse texto, pensei em dialogar com outras pessoas que já pensaram nessas problemáticas muito antes de mim, mas essa ideia ficou pelo caminho. Escrevi com base no que estou sentindo. Em muitos momentos, cheguei mesmo à beira do arrependimento com a escolha do tema da minha dissertação. Ouvi de outros amigos, que são pesquisadores e negros, como era melhor se abster do debate racial quando se trata da própria pesquisa. Por um tempo me questionei como não havia pensado nisso e cheguei à conclusão de que nunca na vida eu consegui ser neutra ou me abster de qualquer coisa que me atinja. Se eu tivesse calado as minhas indagações a respeito da trajetória de Carolina, seria como me abster de mim mesma. Para o bem ou para o mal, sempre vivi nessa intensidade e não sei ser diferente; até nisso me identifico com a autora, que ficou conhecida, na época, justamente por não guardar nada daquilo que a incomodava. Isso me faz pensar o quanto mulheres negras estão cansadas de serem silenciadas, e que esse meu comportamento não é por acaso. Eu não quero ter autoridade sobre a obra de Carolina com base na minha própria história, não se trata disso, mas como pesquisadora da obra dela também não vou me acovardar diante dos conflitos que a obra me impõe. Fiquei pensando no quanto gostaria que o meu relato fosse um aviso para outras pesquisadoras negras, de que o caminho na pós-graduação não é fácil, mas que é lá, justamente, que precisamos estar.

Não posso deixar de citar, neste breve relato, mulheres negras que me inspiraram durante esta trajetória. Caroline Bianca Moreth, que dividiu comigo os momentos do caminho acadêmico que também foram difíceis para ela. Amanda Lourenço, que eu secretamente admiro pela inteligência e serenidade desde os corredores da minha graduação. Rosana de Assis, a psicóloga que, em muitas conversas duras, me fez ver a urgência de enfrentar as feridas do racismo em mim. Carolina de Souza, minha irmã e assistente social da UERJ que, como muitas mulheres negras, tem sido a coluna da minha família. Conceição Evaristo, pelos poemas que leio e que me curam da tristeza nas horas difíceis. Finalmente, Maria Josefa da Conceição, minha avó, que veio do nordeste para o Rio de Janeiro nos anos 40 e criou 8 filhos sozinha e com a própria coragem – e que de uma forma tão especial me levou ao encontro de Carolina.

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