Voa, Sankofa, voa!

Alessandra Martins. Voa, Sankofa, voa! Resistência em poesia. Chiado, 2021.

A obra da educadora, poetisa e historiadora Alessandra Martins traz quatro capítulos poéticos inspirados na luta racial em uma democracia desiludida, pelo olhar de uma mulher negra. Publicado pela editora Chiado Books, Voa, Sankofa, voa! é uma obra que, por um lado, te prende através dos versos necessários e diretos, que criam um gostinho de querer “devorar” o livro decorrente do ritmo da leitura; por outro lado, é uma obra que precisa ser analisada cuidadosamente devido às fortes, e imprescindíveis, palavras que a preenchem.

De cara, no primeiro capítulo, é possível notar o método que Alessandra Martins criou para transmitir o seu recado e a sua luta dentro da sociedade por meio de suas poesias – e que após ler, posso dizer que, de fato, atingiu seu objetivo, com poemas de prender o fôlego, como “Não é lá, é aqui”. Aliás, eu gostaria de tentar expressar por completo para vocês o que eu senti ao ler especificamente essa poesia, mas acredito que só uma leitura integral permite entender e compreender como é grave a exclusão do corpo negro na sociedade, sobretudo a que estamos vivenciando em tempos tão cruéis para tantas pessoas, ainda que outras insistam em não enxergar isso. Depois de meses em desânimo devido às manchetes de jornais que retratam as questões políticas e sociais do país, Alessandra Martins me relembrou que vale a pena debater e lutar a partir da minha condição social e racial, independentemente do alcance da minha voz, e a agradeço por isso, mesmo sem conhecê-la.

Em Voa, Sankofa, voa!, observa-se a realidade ser tratada como algo que deve ser enxergado de forma transparente. A obra mostra que o Brasil, o “país do futebol”, está mais próximo (isto é, se a identificação já não é completa) de certas condições civis comumente associadas a alguns países do Oriente Médio que víamos nos livros escolares e nos filmes de ação hollywoodianos: cenários de relatos de horror, fome e guerrilhas que, na maioria das vezes, resultavam no genocídio de um povo excluído. Os capítulos são permeados por sinceridade e indignação, expondo uma maquiagem que está sendo limpada aos poucos. Além de “Não é lá, é aqui”, essa perspectiva também emerge no poema “Brasil”, dividido em três partes:

“Muitas delas

têm seus corpos tocados

em troca de biscoito,

leite Ninho e pão.

Meninos de doze anos são

recrutados ao tráfico para dar

O que comer à mãe e aos irmãos.”

Além do que foi citado anteriormente, a leitura de Voa, Sankofa, voa! também se destaca por sua atualidade, e desta vez não metaforicamente falando. Por ser escrito em 2020, a poetisa traz em sua obra reflexões de uma era pandêmica, como no poema “Precisamos de amor”, que pondera sobre o que está sendo vivido no presente por grande parte da população, acertando em cheio nos sentimentos do público-alvo e na troca de experiências com a leitora. Fora isso, o livro também tem relatos da autora e citações conhecidas de figuras como Maya Angelou e MV Bill, que complementam o que é dito pela poeta.

“Ninguém parece querer perder.

Estão todos cheios de ismos.

É meu Partido, minha religião,

Minha opinião.”

[…]

“Pandemia…

De ódio, de orgulho, soberba,

egoísmo todos os dias”

Embora eu tenha comentado mais os poemas de cunho social, Alessandra Martins também tematiza o amor-próprio e o amor pela sua comunidade, exaltando, no prólogo do livro, sua descoberta racial e seu processo de aceitação após a leitura de “Negrinha”, personagem de Monteiro Lobato. Foi curioso conhecer sua identificação com uma personagem caracterizada de um modo racista por um homem branco, interpretada por uma mulher que aceita sua cor de pele e sua predominância na sociedade.

Por fim, por não ser uma grande fã de poesias, confesso que fui surpreendida mais do que imaginei por Voa, Sankofa, voa!. É uma obra cujos versos precisam ser divulgados, indicados e debatidos entre conhecidos e desconhecidos. E, que assim como Alessandra Martins, nós, leitoras deste livro e deste blog, concretizemos nossos desejos de voar livremente.

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