Urgências do presente

Vera Duarte. Desassossegos & Acalantos. Katuka Edições, 2021.

A vida, como a compreendemos, requer dinamicidade e, em momentos nos quais o exercício desta é interrompido, levantam-se questionamentos de natureza política e social. A pandemia do Covid-19 provocou mudanças na realidade vivida, dada a natureza das medidas de contenção do contágio – em especial, o isolamento. É nesse contexto que a escritora cabo-verdiana Vera Duarte lança seu olhar sobre diversos problemas ao redor do mundo. O livro de microcontos Desassossegos & Acalantos, publicado pela Katuka Edições, foi escrito durante o ápice das medidas de isolamento social; é notável o empenho da autora para registrar a tragicidade do momento vivido.

Os contos, curtos mas de grande significação e abertura para os mais diferentes pontos de vista, abordam temáticas variadas. Por vezes, os microcontos parecem indicar as variações mentais da autora, no que diz respeito às suas inquietações. Uma coisa é certa: a pandemia trouxe uma relevância cultural e metafórica às produções literárias deste momento. O sentimento recorrente ao longo da leitura do livro remete à catarse pela qual a autora passou ao registrar, de maneira hábil e ágil, suas percepções.

“Lutava por conhecimento e reconhecimento, amor e respeito, igualdade e fraternidade, mas os corruptos, criminosos e racistas não gostaram e em surdina balas assassinas apagaram-lhe o sorriso.”

A temporalidade do livro é bem demarcada, entre outros motivos, pela presença de referências aos efeitos da pandemia no nosso cotidiano, bem como de algumas manifestações a respeito de eventos políticos internacionais que marcaram o ano de 2020. A autora manifesta sua percepção dos eventos políticos mais comentados que dizem respeito à população negra de diversas partes do mundo, como os assassinatos de George Floyd e da vereadora Marielle Franco.

Entre sonhos, lembranças e simulações de encontros “pandêmicos”, a tragédia se faz presente durante a leitura. Os descontentamentos a respeito da morte; a indignação pelo desrespeito à população negra e cabo-verdiana são notáveis. Pode-se supor que essa seja uma característica do temor que a pandemia provocou em todos aqueles que a viveram; contudo, algumas das histórias ali contadas remetem a tempos anteriores a este.

Revisitar momentos em que o dramático e a desesperança predominam é comum em tempos de isolamento, sobretudo nas circunstâncias em que estes contos foram concebidos.

“A pandemia virou o mundo de pernas para o ar, Já vivíamos chafurdando na guerra, na corrupção e na criminalidade desenfreada, quando nos aparece mais essa provocação.”

Uma leitura dos 55 microcontos presentes no livro permite supor que a pandemia e, consequentemente, o isolamento parecem ser apenas pretextos para o enfrentamento de questões latentes. De certo modo, a “pausa” provocada nas primeiras semanas em que o contato com o mundo era restrito despertaram algo na autora; como lemos na dedicatória:

“[…] apenas a escrita me salva, neste tempo de pandemia, dos ódios sem sentido, das guerras fratricidas, dos fundamentalismos que matam e das mais atrozes iniquidades que assolam o mundo e nos fazem sofrer.”

Os dramas humanos não cessam quando a vacina é descoberta, mas é nesse momento que o livro chega ao fim. O desabafo de Vera Duarte, poeta e desembargadora cabo-verdiana, foi despertado pela autorreflexão necessária em tempos de solidão. Atravessado por sensações de angústia e intolerância, seu mais novo livro proporciona uma leitura rápida e necessária; mas esta leitura deve ser renovada sempre que a vida voltar ao automático, quando não devem cessar as reivindicações e desabafos propostos na obra.

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