“Lembrar quem fomos”: uma literatura para novos tempos

Eliane Debus. A temática da cultura africana e afro-brasileira na literatura para crianças e jovens. Florianópolis: Núcleo de publicações, Centro de Ciências da Educação, 2017.

a-tematica-da-cultura-africana-e-afro-brasileira-na-literatura-para-criancas-e-jovens-debus-eliane-8524925760_300x300-PU6e6acb20_1Encarar a literatura como uma ferramenta que possibilita a problematização e reflexão de práticas antirracistas: isso fez com que Eliane Debus, em A temática da cultura africana e afro-brasileira na literatura para crianças e jovens, se debruçasse sobre a diversidade étnico-racial na literatura infantojuvenil, em uma análise que tem como objeto de estudo a produção literária de quatro escritores brasileiros – Joel Rufino dos Santos, Rogério Andrade Barbosa, Júlio Emílio Braz e Georgina Martins – que abordam, em suas narrativas, a cultura africana e afro-brasileira. É de fundamental relevância que saibamos que a escolha por esses autores não ocorreu de maneira aleatória, visto que produziam narrativas com essa temática antes da Lei 10.639/2013, que incluiu no currículo oficial da educação básica da rede de ensino pública e privada a obrigatoriedade do ensino de História da África e da Cultura Afro-brasileira; ou seja, já havia, nesses autores, uma necessidade de tratar sobre essa temática, há muito preterida, em suas produções literárias muito antes de ela se tornar obrigatória. Essa necessidade teve diferentes motivações, como o caso de Rogério Andrade, que ao retornar, na década de 1980, ao Brasil depois de uma temporada na Guiné-Bissau – onde trabalhou como professor voluntário –, percebeu a ausência da temática africana no mercado infantojuvenil; ou como Júlio Emílio, que encontrou nesse tema um espaço de busca da própria identidade étnica.

Eliane Debus – Doutora em Letras: Teoria Literária (PUC-RS/2001); professora do departamento de Metodologia de Ensino do Centro de Ciências da Educação na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – nos apresenta como poesia-epígrafe o poema De mãe, de Conceição Evaristo, em cujos versos pode-se perceber a figura da mãe como representação de uma sabedoria raiz, ancestral, o que imediatamente, nos leva a presumir um ponto comum constituinte dos escritos analisados nessa obra: a busca por uma raiz.

Antes de começar a expor o trabalho dos escritores já mencionados, Debus, além de levantar uma discussão sobre o funcionamento da literatura para infância (em que existem dois leitores modelos: a criança – que de fato é o público-alvo – e o adulto – que é quem seleciona a leitura), aponta também estudos anteriores – inclusive um levantamento quantitativo em que, de 1.785 títulos, apenas 79 traziam personagens negras – acerca da temática africana em diferentes períodos históricos; é dizer, como o negro e sua cultura foram representados, por exemplo, na década de 1970, em que não havia uma diversidade étnica nas representações de protagonistas nas narrativas, restando ao negro papéis totalmente estereotipados e subalternizados, como bem explicita o trecho que segue:

“No que diz respeito à presença de personagens negras ou de elementos da cultura africana e afro-brasileira em narrativas de recepção infantil e juvenil, produzidas no Brasil, quase que inexiste anteriormente à década de 1970, e, quando isso ocorre, o negro é representado com docilidade servil, submisso ao cumprimento de seu papel de subalternidade (Tia Anastácia, de Monteiro Lobato) ou é aquele que provoca o apiedamento (Menino André da lenda do menino do pastoreio) ou, ainda, aquele que não é o que é, travestindo-se de outra pele: o negro de alma branca (como Joaquim, de Joaquim, Zuluquim, Zulu — 1983), repercutindo ideias vinculadas, seja pelo regime de subalternidade promovido pela escravização dos povos africanos, seja pela política de branqueamento.”

No livro Gosto de África: histórias de lá e daqui, composto por 7 contos, o escritor carioca Joel Rufino do Santos nos faz imergir em um universo multicultural em que nos deparamos tanto com recontos de lendas do continente africano quanto com histórias populares de personagens do Brasil. Ele nos apresenta a uma figura que vem do continente africano que se repete em dois de seus contos: o Djin – um anjo da guarda – que, em uma das narrativas auxilia Cadija, uma menina do Senegal, negra e mulçumana, que por viver sob custódia da madrasta, enfrenta alguns percalços da vida. Já em O filho de Luísa, o narrador nos apresenta a uma personagem negra livre, que vivia na Bahia e pertencia à sociedade secreta de negros dos malês; neste conto, Rufino traz à tona tanto acontecimentos históricos, como a Revolução dos Malês, quanto personalidades representativas de força da luta negra pelo processo abolicionista, como Luísa Mahin e seu filho, o poeta Luís Gama. Sobre a relevância desses recontos, Debus salienta:

“(…) a representação de elementos místicos, históricos dos países do continente africano e brasileiro, possibilita que uma criança brasileira (re)conheça um pouco do que ficou por muito esquecido; por outro viés a luminância sob os fatos reais tão pouco focado auxilia na reelaboração de uma nova história.”

As narrativas do carioca Rogério Andrade Barbosa são centradas em recontos das histórias africanas – isso se deve, como já mencionado, à sua experiência por um certo período no continente africano –, conseguindo manter marcas muito próprias dessas narrativas tradicionais, como a oralidade e o respeito a ancestralidade. No livro Duula, a mulher canibal – um reconto africano, ele recria um relato mítico da tradição oral africana, tendo como protagonistas as mulheres-canibais. Esse relato gira entorno da metamorfose de uma jovem bonita, chamada Duula, em uma mulher canibal, em que essa transformação mítica se dá por elementos sociais, tais como a fome, miséria e a seca que acabaram com seus familiares, restando a ela a solidão no deserto.

Em alguns livros de narrativa contemporânea do escritor mineiro Júlio Emílio Braz, que afirma só ter se reconhecido negro aos vinte e poucos anos de idade – reflexo de todo um processo de branqueamento étnico que persiste até os dias atuais –, encontramos uma temática: o processo de construção da identidade étnica dos personagens, como em Pretinha, eu?, relato da história da menina Bel, que aos poucos constrói sua identidade negra a partir do “outro”, nesse caso uma colega da escola, Vânia. Como em muitos casos reais, Bel é orientada por sua mãe a compor sua identidade em cima da negação de sua origem. O curioso de analisar esse tipo de comportamento é a possibilidade de desmistificar aquela ideia absurda segundo a qual “o pior racista é o próprio negro”, porque o que justifica plausivelmente o comportamento da mãe de Bel – que dá voz a muitas mães e pais de todo o país – é a superproteção; a ideia é justamente criar eufemismos para o ser negro: você não é negro, é pardo! Você não é negro, é moreno! Tudo isso se dá porque é sabido a carga pesada que se carrega, dependendo da cor da pele; e essa carga varia de acordo com os traços físicos, o colorismo, deixando-a menos pesada ou impossível de carregar – é o racismo em suas diferentes facetas.

Pensar em literatura infantojuvenil não implica pensar imediatamente em temas polêmicos, como desigualdade social ou racismo, e isso porque discutir esses assuntos requer um cuidado com a linguagem utilizada para alcançar seu público-alvo, sem perder as características que fazem dele um livro literário infantil e juvenil. Isso é o que faz a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Geogina Martins, que traz em parte de seus livros personagens-crianças, abordando temas como trabalho infantil, pobreza e abandono. Um dos contos que constituem o livro No olho da rua: historinhas quase tristes se chama O menino e o livro; ali se narra a história de um menino que vive em situação de rua e que sempre vai a uma biblioteca ler livros. Em um desses dias, uma mulher o vê lendo e decide presenteá-lo com um livro; no entanto, é surpreendida pela negativa da criança, que diz não querer o livro por morar na rua e não ter onde guardá-lo – por isso, prefere que eles fiquem guardados nas prateleiras da biblioteca. Neste conto, algumas questões são desconstruídas; por exemplo, a possível rejeição ao menino dentro daquele espaço social. Além disso, expõe-se a realidade vivida por muitas crianças em todo Brasil: o abandono. Assim Debus sintetiza os livros analisados de Georgina:

“(…) descrevem a dureza do dia a dia vivido por muitas crianças que vivem nas ruas do Brasil, mas que são invisíveis para outras crianças, que vivem enclausuradas em seus ambientes confortáveis, distantes daquela realidade.”

Por fim, apontar a importância da temática da cultura africana e afro-brasileira na literatura infantojuvenil implica voltar à poesia-epígrafe, refletindo sobre o papel da sabedoria matriz, sobre a história que perpassa nossos antepassados, visto que não há outro caminho para uma construção identitária; é mostrar, por meio da memória, a realidade vivida de um povo antes da escravização, evidenciar que este fato não compõe a história sozinho, que antes dele havia uma realidade bem diferente de toda a desumanização que conhecemos. Seria compreender, como Mackandal – herói da novela O reino deste mundo, do cubano Alejo Carpentier –, o presente escravista como um acidente histórico e o passado como uma espécie de engrenagem, sendo a libertação o objetivo a ser alcançado. Nesse contexto, a memória é a prova de que existe uma realidade paralela a essa; é dizer: as crianças negras de hoje não sabem o que é viver em uma sociedade em que a cor da pele não determina o espaço social que ocupam – mas elas precisam ter conhecimento de que em algum momento da história isso, de fato, não importava; além de trazer o protagonismo negro na luta por liberdade, invertendo a posição de passividade imposta pela história conservadora. Enfatizando a relevância da perpetração da memória, Debus finaliza:

“Numa sociedade étnico-plural como a brasileira, faz-se necessário, todos os dias, lembrar quem fomos para não esquecer o que somos.”

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