Histórias entrecruzadas, histórias que se repetem: sobre “Becos da memória”, de Conceição Evaristo

Conceição Evaristo. Becos da memória. Belo Horizonte: Mazza, 2006.

BecosdamemriaA narrativa nasceu nos anos 80, mais especificamente entre 1987 e 1988, porém só foi publicada em 2006, quase vinte anos depois – três anos após a publicação do romance Ponciá Vicêncio, escrito posteriormente (publicado em 2003 pela Editora Mazza, de Belo Horizonte). Becos da Memória é a primeira obra em que Conceição Evaristo experimenta construir ficção “con(fundida)” com a vida. A primeira tentativa de criar escrevivências. A partir disso, podemos pensar suas dificuldade de vir à público.

A primeira tentativa de publicação foi pela Fundação Palmares, como parte das comemorações do Centenário da Abolição, mas não aconteceu por, provavelmente, falta de verbas. Becos da Memória ficou engavetado até que houve outra tentativa de publicação por parte da mesma fundação, já com outra gestão.

Em Becos da Memória, há uma literatura, e é esta de corpo-a-corpo com a vida – visto que, na medida em que nos aprofundamos nas histórias de cada morador da favela, nos apercebemos de diversos fatores colaborativos para a reprodução das desigualdades e que procuram manter o povo no esquecimento, alienado da própria história e causas. Na literatura corpo-a-corpo, necessário é o narrador se aproximar dos fatos, não se esquivar deles; necessário é ainda que ele conheça, de fato, o que representa, como acontece de forma magistral em Becos da Memória. Favelada que fala sobre outros favelados.

”Hoje a recordação daquele mundo, me traz lágrimas aos olhos. Como éramos pobres! Miseráveis talvez! Como a vida acontecia simples e como tudo era e é complicado!”

Neste fragmento, há muitas exclamações que corroboram o sentimento de indignação diante da situação de vida que levavam/levam os moradores de favela. Linguagem “simples” e em 1ª pessoa, que reverbera um realismo feroz e sem a eminência da norma culta; trata-se de memórias que fluem na linguagem. E a linguagem que está para a construção de realidades de um povo pertencente às classes mais baixas: povo preto, povo com ancestrais que foram escravizados, povo excluído, povo discriminado, povo que, para além de tudo isso, possui cultura, histórias e que, sobretudo, escreve.
As histórias acontecem nos becos de uma favela não nomeada, que sofre um gradativo desfavelamento. Becos são, segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa, ruas estreitas, muitas vezes sem saída. As memórias de uma pluralidade de personagens que viveram nestes becos da favela são relatadas a partir da ótica de uma narradora – não apenas observadora, mas participante – que colhe e relembra as memórias que afloram na narrativa de maneira fluida, e que trazem outras recordações de histórias de antepassados dos personagens que vivem o seu reflexo. São memórias dentro de memórias, que revelam as raízes dos problemas sociais. Sobrevidas sem saída muitas vezes, a não ser pelos escritos, como forma de sobrevivência.

A linguagem vai despir e denunciar as discrepâncias entre as classes sociais, vai expor todo o contexto histórico registrado desde a escravidão à relação favela-senzala, prioritariamente marcada na pele dos negros que vivem seus reflexos, muitas vezes sem terem discernimento disto. A favela é consequência de fatores históricos, fatores que são lembrados por personagens como o avô de Maria-Velha, que por suas lembranças sofria ao olhar para a neta – que o fazia pensar em sua filha, que depois do tronco fora vendida. Maria-Velha é a lembrança, o “retrato fiel” da tia. Para além dos marcantes traços peculiares herdados dos genes, Maria-Velha para seu avô é o efeito da pedra pontiaguda no peito que o faz sentir dor, ela é a lembrança dolorosa de um passado presente diante dos seus olhos. Aquela menina, pernas longas, aqueles pulos acabritados, era a imagem fiel de uma filha sua. Filha que ele perdera de vista e que nunca mais vira. Mãe-de- leite de uma criança, uma dia a escrava se rebela contra o sinhô. Agarrou o homem pelo peito da camisa, sacudiu, sacudiu. A escrava foi posta no tronco, iam surrá-la até o fim. A criança, filha de leite, chora, grita, berra, desmaia, volta a si, quase enlouquece.

– Não matem, “mamãe preta”, não matem “mamãe preta”!
Os sinhôs resolveram então vender a escrava e nunca mais se soube dela.

Histórias entrecruzadas, histórias que se repetem; na linguagem, interligam-se relações que muitas vezes são desconexas, como o caso da colega de turma de Maria-Nova – nesse caso, trata-se não de memória, mas do esquecimento da própria história. Uma das únicas negras de uma turma de 45 alunos, Maria-Nova experiência todo o conteúdo conservador na sala de aula, assimila a Senzala-favela à sua própria história e à dos seus conhecidos da favela, mas sua colega de classe é alheia à própria história:

Nesta época, ela (Maria-Nova) iniciava seus estudos de ginásio. Lera e aprendera também o que era a casa-grande. Sentiu vontade de falar à professora, queria citar como exemplo de casa-grande, o bairro nobre vizinho e como a senzala, a favela onde morava. Ia abrir a boca, olhou a turma, e a professora.Procurou mais alguém que pudesse sustentar a idéia, viu a única colega negra que tinha na classe. Olhou a menina, porém ela escutava a lição tão alheia como se o tema escravidão nada tivesse a ver com ela. Sentiu mal estar…

De um lado Maria-Nova, herdeira de uma família cujos antepassados foram escravizados: sua tia Maria-Velha sorria para dentro, sua mãe nem para dentro sorria; seu tio Totó ainda sujeito à exploração, sua vó Rita – a personificação do acolhimento sem discriminações. Maria-Nova ansiava escrever estas histórias: muito mais que sentir, queria observar, cotejar uma história e outra. Maria Nova se reconheceu na sua história apresentada – não se sabe de que forma – em sala de aula. A outra aluna negra, por outro lado, não se reconhece inserida no contexto. Por que tamanha alienação no momento em que Maria-Nova, ao ouvir a aula, cotejava as realidades, o que lhe machucava o peito? Em oposição à sua colega de classe, Maria-Nova teria muitas histórias para contar, tantas que não caberiam no tempo-aula.

A relação entre memórias, história e ficção é criada por meio da linguagem, que cria laços não pelo tempo, tampouco pelo espaço, mas por meio da pluralidade, da forma a denunciar disparidades e a expor e criticar a hegemonia no corpo da narrativa e de seus personagens. As histórias transpassam o tempo e o espaço, na medida em que entendemos senzala por favela e a casa-grande como o bairro nobre – cujos moradores exploram os que estão ao lado, na favela, como nos sugere a aluna Maria-Nova, que sonhava ser escritora. As histórias se repetem, ela percebe. Não são dicotomias, pelo contrário: são relações contínuas do tempo-espaço, da história-ficção.

Nesse sentido, ainda temos a personagem Ditinha para melhor retratar isto com seu corpo, suas marcas, suas histórias. Ditinha é diarista, tem três filhos e é sozinha. Ditinha diante do espelho se vê mais feia que normalmente se vê; deseja ser outra coisa, deseja ser a patroa: “Dona Laura era bonita! Muito alta, loira, com olhos da cor daquela pedra de jóias”. Ditinha apresenta desejos de não ser o que é, mas ser outra. Ela é a representação da violência simbólica que sofre uma mulher negra ao se alienar de sua beleza. Dessa forma, deseja ser como a patroa, cujas características contrastam com as suas. As marcas de cansaço e exaustão revelam uma vida dura de quem tem três filhos, um pai doente e uma vida de exploração. Ditinha diante do espelho vê o simulacro de sua realidade: ela é o sujeito descentralizado que projeta outras realidades para si a partir do outro, realidades que conclui serem incompatíveis com a sua, de todo e qualquer modo. Ditinha toma para si a jóia da patroa. Diante da impossibilidade de ser o que ela é, ela toma para si aquilo que ela tem. Agora a pedra que machucava o peito da personagem era real, não metaforizada como a pedra pontiaguda que machucava o peito do avô de Maria-Velha.

Muitas são as pedras que ferem os sujeitos que vivem nas senzalas-favelas. Para tantas histórias de dor e sofrimento, necessário era apresentar personagens subversivos como Maria-Nova e Negro Alírio – e ainda tio Totó, que é exemplo de força e resistência, apesar das dores de perder a família no Rio. Mesmo tendo sonegado o direito à escolarização, tio Totó aprende sozinho e com muita dificuldade, na pele, na marra, o que é ler nas entrelinhas. Ele aprendeu por si só a ler o que não estava escrito, o contexto do texto. Ao ler “Os sonhos dão para o almoço, para o jantar, nunca”, pensa, em um primeiro momento, nos sonhos comestíveis feitos por sua esposa. Era o que conseguia, até então, depreender daquilo. Posteriormente, entendeu em que contexto estava inserido o texto: dentro de um livro de ditados e poesias; não poderia ser sonho de comer, não poderia ter um sentido literal. E, mais adiante, a partir de suas experiências de vida, entendeu que sentia fome por não poder concretizar os sonhos que carregava: tinha fome de outro tipo de sonho. Ler o que não estava escrito era o primordial para uma boa leitura. Ler o que está por trás de cada história dos personagens de Becos da Memória é o essencial para a melhor compreensão do que está sendo exposto e denunciado concomitantemente: a linguagem está para a representação de uma realidade exposta no corpo negro, no corpo da mulher, nos becos, no buracão da favela que é desfavelada, enfim.

Maria-Nova, por sua vez, representa o anseio pela escrita de histórias que são silenciadas nos becos da favela. “É impossível que tudo acabe assim” pensou a menina. Vida. “É preciso, não sei como, arrumar uma nova vida para todas”. Neste monólogo interior, ela descobriu que sua ferramenta seria a escrita. Negro Alírio, nesse sentido, também é a representação da subversão, da constante repressão por expor resistência aos domínios que os prendem. Ele tenta a todo tempo fazer com que seus irmãos reflitam sobre a alienação que os submete a uma vida descomunalmente miserável. Ele acreditava que a leitura era um passo muito importante para a libertação; foi a partir do momento em que aprendeu a ler que aprendeu a agir. O ritmo para essa libertação, vale ressaltar, era frenético como o parágrafo:

“A vida exigia sim! Era preciso caminhar, era preciso ir – era o que ele repetia sempre. E lá estava ele junto de todos. Sempre atento. Dentro dele cabia tudo. A força do pensar, do criar, do mudar, do lutar, do construir.”

Muito além dos estereótipos, a caracterização de alguns personagens como Vó Rita e Bondade sugere uma necessidade de ressignificação do conceito de favela. Sobre o passado de ambos, temos poucas informações. Tudo o que sabemos de Vó Rita é que dorme embolada com a Outra que é leprosa, por ela acolhida, quando todos a rejeitam. Sobre o personagem Bondade, sabemos que adora os festivais de bola e que vive em qualquer lugar. Ambos conseguem ultrapassar o estereótipo que geralmente reduz os favelados a ignorantes, perversos, entre outros adjetivos do mesmo naipe. O que encontramos nestes personagens não é a dicotomia, mas relação contínua que estabelecem com a miséria em que vivem e as grandezas que carregam. Também sabemos que Vó Rita viu muitos marmanjos nascerem e os recebeu, sendo muitas vezes os braços, o seio, o coração da favela, o transpassar do tempo. E Bondade é o transpassar do espaço, visto que conseguia transitar em todos e permanecer e/ou deixar rastros por onde passava.

Nas instabilidades dessas vidas, memórias emergem de histórias passadas, relidas a partir de suas ruínas. Dessa forma, nos deparamos com sujeitos desenraizados. Na medida em que tratores e máquinas realizam o processo de desfavelamento, a história nos coloca diante da questão do inacabado. É tudo reflexo do inacabamento histórico e literário de histórias que perpassam um povo excluído; histórias não tão passadas quanto parecem – histórias de um processo inacabado, a escravidão, que ainda se reflete nos dias atuais.

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