Reconstruir o humano

Lílian Paula Serra e Deus. A palavra em preto e branco. Colatina: Clock-t Edições e Artes, 2017.

519bcL89z-L._SX331_BO1,204,203,200_A palavra em preto e branco – título que, por si só, evoca a imagem de um texto, fazendo uma alusão imediata à letra e ao papel, e que também proporciona uma sensação de completude, em que um necessita do outro para existir no universo das palavras, no mesmo patamar de relevância, sem hierarquização – é uma compilação de poesias da mineira Lílian Paula Serra e Deus, Doutora em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC-Minas, que nos leva através de diferentes campos temáticos: o amor, a identidade, a liberdade, a maternidade, padrões de beleza, solidão e tantos outros.

A começar, a imagem de Deus criada por Lílian em alguns de seus versos é instigante por nos aproximar dessa entidade tão cristalizada e distanciada que é o Deus eurocêntrico; contudo, ela constrói uma imagem humana desse ser, criando uma espécie de elo entre ele e a parte da população marginalizada socialmente, chegando até mesmo a defini-lo a partir deste público, como podemos perceber pelo verso “Por enquanto, o Deus no qual eu acredito come brigadeiros”, ou por estes:

Eu sou a herança de pisadas marginais.
Eu sou a prostituta da esquina.
Eu sou a mulher, cotidianamente, violentada pela cultura que seu machismo avaliza.
Eu sou o homossexual, diariamente, assassinado e que rende suas piadas de fim de semana.
[…]
enquanto você espera que o seu menino Jesus volte para lhe dar redenção.

Essa aproximação de Deus ao humano ocorre de forma recorrente, como podemos notar, por exemplo, nos versos vociferados pela grande cantora brasileira Elza Soares, em uma composição do seu mais recente álbum, Deus é mulher – “Deus é mulher/ Deus há de ser”– ou na rima do rapper Emicida, “Eu vi Deus e ele era uma mulher preta”. O fato é que se trata de uma tentativa de dizer que a existência desse Deus – que seria a maior representação do amor – implica, justamente, na existência dessas pessoas, excluídas diariamente por não se encaixarem nos padrões socialmente estabelecidos.

Navegando pelos versos, nos deparamos com algumas versões do eu-lírico no que tange à sua visão de amor, sua representação. Se na poesia Amor de silicone a voz de insegurança que ecoa é de uma mulher que sofre por não ter seu amor correspondido como idealizava:

Dentre todos os copos de cristal eu queria ser aquele que pensa brilha mais.
Queria ser o único em que você bebesse.
Queria ser a única a matar sua sede.

Em Não, obrigada, esse mesmo eu-lírico nos arrebata com a firmeza de seu tom, discorrendo com segurança por cada verso sobre o caminho que percorre e com pleno contentamento por ser quem é. Vejamos:

Preciso dizer que por anos me achei velha demais para ser quem eu era,
Mas descobri que tem sempre alguém mais velho que a gente
com uma prostituta enrustida em um sentimento de mulher santa
que se acha no direito de julgar

Preciso gritar que toda puta é livre
e hoje é liberdade o que eu quero ter.

É interessante apontar essas oscilações para refletirmos sobre a essência humana, sobre nossa construção inconstante de ideias como amor, raiva, felicidade, liberdade; definições que não são definitivas nunca, que mudam à medida que mudamos como seres; à medida que mudamos anseios; à medida que o tempo leva consigo algumas pessoas e trazem outras – e nós permanecemos no alto dessa roda gigante, também conhecida como vida, lidando e aprendendo a amar as nossas várias versões de nós mesmos.

Na poesia Cansaço, encontramos um eu-lírico que se apresenta como uma mãe em estado de esgotamento explícito, inerente às muitas tarefas que desempenha, desconstruindo toda aquela imagem da mãe como um ser de energia inesgotável, o que leva a um rompimento de toda a romantização que assola a maternidade. Desse modo, Lílian Deus resgata o que há de mais humano na figura da mulher-mãe, que se cansa física e mentalmente. Perceba:

Eu estou cansada do trabalho que é ser mulher,
cansada do trabalho eterno do parto,
cansada da mãe que não mais adormece em mim.

Nesta pluralidade temática, há também espaço para uma denúncia do apagamento perceptível em uma História que conta feitos e fatos sob uma única perspectiva, que insiste em colocar negras e negros às margens da construção de uma identidade nacional, colocando-os em posição de passividade até mesmo quando se trata da sua própria História, de sua luta e resistência. Assim, ouvimos a voz de um eu-lírico insatisfeito com os rumos que nos levam sempre aos mesmos lugares, ou melhor, com os rumos que só permitem que algumas pessoas caminhem; é possível sentir a raiva no final de cada verso:

A história só faz sentido quando contada no plural,
história no singular é poder.
É livro sem contracapa,
diálogo sem interlocutor,
é Ocidente, sem Oriente,
é ego, sem alter ego,
é texto sem polifonia,
é monólogo.

Há quem diga que Tiradentes foi herói. Foi?
E Njinga? Foi o quê?

Trazer à tona a figura de Njinga – rainha angolana, que estabeleceu forte resistência a projetos coloniais vindos de Portugal, em meados do século XVII – é trazer à tona a existência de muitas outras negras e negros que a precederam e a sucederam, que por motivos que bem conhecemos foram extirpados da história. Para além disto, é levantar questionamentos acerca de nosso diminuto conhecimento sobre essas heroínas e heróis silenciados, visto que no verso que antecede a menção da rainha temos a figura de Tiradentes, personagem principal do episódio histórico conhecido como A Inconfidência Mineira. Lílian nos coloca diante de dois extremos, diante do conhecido e clamado versus o desconhecido e ignorado; o choque é estarrecedor! Então, deixo aqui a minha pergunta: o quanto de heroínas e heróis negros conhecemos e o que temos feito para manter vivas suas existências? Essa responsabilidade também é nossa.

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