Um lugar para chamar de meu

Jarid Arraes. Um buraco com o meu nome. São Paulo: Ferina, 2018

UM BURACO“Aos que nem sempre encontram matilha”: é com esta dedicatória que somos levadas a um lugar seguro e confortável para penetrar nos versos do primeiro livro de poesia de Jarid Arraes, Um buraco com o meu nome, lançado agora em 2018, mas que começou a ser pensado e produzido em meados do ano passado. O título já vem carregado de várias divagações: qual a significância desse buraco? Por que ele tem o “meu” nome? E, a partir disso, se inicia uma busca de sentidos, de significados que essa combinação de palavras gera em nós, leitoras. É possível construir uma imagem desse lugar, não é? Imagino um lugar calmo, onde é possível ouvir, lá no fundo, aquela nossa música favorita; é um lugar de entrada restrita, tem o nosso nome, o nosso tamanho exato, nem a mais, nem a menos, para não restar chances de juntar entulhos; é um lugar para onde fugimos quando o mundo pesa nas nossas costas, as pessoas gritam, os carros buzinam, o semáforo quase abre e temos que correr para atravessar a rua a tempo; é o lugar que vamos chamar de oásis quando o caos se estabelece, e o ideal é que esse lugar seja dentro de nós mesmas – a grande questão é que o caminho para este autoconhecimento é árduo demais, há quem o descubra no início da vida e há quem não o descubra nunca.

Essa ideia de caminho a ser percorrido também fica evidenciada na forma como o livro vem dividido, em quatro capítulos, intitulados “Selvageria”, “Fera”, “Corpo aberto” e “Caverna”. À medida que saltamos de um capítulo a outro, temos uma real sensação de percurso, mudança de cenário, e sentimos que estamos mais próximas de alcançar o objetivo, o de chegar à caverna, posto que é ela que nos devolve ao sentido de “buraco” trazido no título. Esses capítulos estão carregados de temáticas diversas: genocídio da população negra, violência contra a mulher, solidão, dor, amor.

Há estabelecida uma relação dos personagens com eles mesmos em diversos poemas, o que se dá por diferentes mecanismos. Um desses é o visual, em que dois poemas são apresentados, literalmente, de maneira espelhada, além do uso, em composições diversas, da palavra “espelho”, como ocorre no poema Uma mulher pergunta, que carrega no próprio título uma indefinição desse sujeito; entretanto, nos últimos versos é criado um elo, uma relação dessa mulher – outrora indefinida – com ela mesma, marcada com uso do termo “espelho”, aquilo que gera reflexo:

e a mulher nesse dia pergunta
para a outra mulher
para o espelho

de que tudo isso
adianta

Através do poema mangue-vermelho, Jarid faz reviver em nossa memória a chacina ocorrida em maio de 2006, na cidade de São Paulo – os dez dias de guerra que resultaram em, pelo menos, 564 mortes, impulsionando a criação do movimento “Mães de maio”, que visa combater a impunidade com que é encarada a violência do Estado em relação aos corpos mais vulneráveis socialmente. São versos que gritam sobre o genocídio; que mostram essa face horrível de uma humanidade desumana, como cantou Renato Russo há uns bons anos; que reverberam a nossa incapacidade de enxergar no outro essa humanidade, de perceber nesse outro um ser, que como nós, carrega dores, amores e sonhos. Versos que me levaram até o poema Vozes-mulheres, da nossa Conceição Evaristo, justamente por, além de trazerem a figura da avó, trazerem o peso e a importância da manutenção da memória que é perpassada por essa figura feminina; trazerem a memória, essencialmente, como ferramenta de construção da identidade; memória que nos possibilita aspirar por dias melhores. Observe este trecho:

[…]
as avós do corpo
comum
jogado deitado
emprestando
o marrom ao solo
as avós
ninam memórias
e cantam

filho
netinho
ouça o riso
do passado distante

existiram contos
sem barcos
sem marés
nervosas de sangue
[…]

Essa necessidade de trazer à tona uma memória apagada socialmente é um mecanismo de sobrevivência e resistência para continuar acreditando em dias melhores; dias estes que já existiram, o que tira essa busca do campo da quimera: é possível alcançá-los de novo e de novo e de novo, porque é isso que nos move.

Em Dora, o eu-lírico começa descrevendo essa mulher como um sujeito que vivencia a violência doméstica, tanto a física quanto a psicológica. Na quarta estrofe, esse ser individual ganha uma espécie de universalidade: “onde Dora e eu e todas / nós / devemos deitar em espera” – nota-se que a questão da violência contra a mulher ganha proporções muito maiores; não é apenas sobre Dora, é também sobre o eu-lírico-uma mulher – e sobre nós, leitoras; é sobre mulheres. É de uma importância extrema tratar a violência como um problema social, como uma questão que envolve todo um coletivo: não estamos falando de casos isolados e os dados nos mostram isso, visto que, aproximadamente, 503 mulheres brasileiras são vítimas de agressão física a cada hora; entre as mulheres que sofreram violência, 52% se calam e apenas 11% procuram a delegacia da mulher. Além da denúncia social, esse tipo de narrativa possibilita o reconhecimento do sujeito enquanto vítima de uma situação de misoginia, provocando um insight: não é sobre mim, sobre algo de errado no meu comportamento, já que é uma prática que se repete com outras centenas de mulheres diariamente, em todo o território nacional.

Não deixaria de mencionar beira, o primeiro poema que li do livro, postado em algumas das redes sociais da Jarid e que teve impacto muito forte em mim, por tratar do colorismo e por eu ser negra de pele clara como ela – assim, sei bem como é a sensação de não-lugar, de não ser nem negra, nem branca; de estar entre lugares, uma sensação de não pertencimento e falta de identidade – é isso que ela descreve nos versos que seguem:

[…]
entre cores
diluídas
e marcas
deixadas
não sei que mulher
é meu tipo
de ser
se sou como ela
como outra
se minhas raízes
se fazem entender

pergunto
no espelho
com tubo
de creme

[pingaram três gotas
No tapete]

que mulher sou eu
mulher-quase
mulher-nem-tanto
mulher-um-pouco-demais
para não ser

As ilustrações também não podem passar desapercebidas: são criações da própria escritora, que nunca desenhou, tampouco pensou em ilustrar um livro. Segundo Jarid, todas as ilustrações foram criadas em três dias – dias em que se exilou em seu escritório, ouvindo Ópera e rememorando seus escritos. O uso apenas do carvão me pareceu favorecer a ideia de agonia e desespero que nos transmitem alguns de seus poemas.

Esse último livro nos mostra toda a versatilidade da não só cordelista e escritora, mas também poeta, que enfrenta dificuldades diárias para se manter nesse meio masculino e branco, sobretudo na condição de escritora independente; ela tem uma força descomunal. Um dos poemas, caligrafia da resistência, é dedicado a Conceição Evaristo – de quem ela sempre se evidencia admiradora – e Amelinha Teles. São versos que falam sobre uma escrita que narra a dor, carregada de memória e identidade; uma escrita que, por ser a sua própria, talvez Jarid não reconheça em seus textos – mas que eu, enquanto leitora e admiradora de seu trabalho, posso afirmar, sem recuar um passo: a caligrafia da resistência é sobre Conceição; é sobre Amelinha; é sobre Djamila; é sobre Carolina; e é sobre, inquestionavelmente, Jarid Arraes, a poeta cearense que será ouvida em todo mundo.

Finalizo com um trecho dessa obra-prima de poema e dizendo: permita-se ser tocada pelo escritos sensíveis e fortes desta mulher – o caminho é belo e sem volta:

[…]
queria ter essas
mãos
que escrevem
a caligrafia da resistência
os discursos que
irão e continuarão
exclamando
cheios
de força
jorrando
identificação
essas mãos
[…]

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