Um buraco de voz e abrigos

Jarid Arraes. Um buraco com o meu nome. São Paulo: Ferina, 2018

UM BURACO Em sua mais recente obra, Um buraco com meu nome, a cordelista Jarid Arraes escreve um compilado de poesias profundamente político, que nos faz refletir sobre diversos assuntos presentes na sociedade contemporânea. O livro foi lançado pelo selo Ferina, criado por Jarid para publicar obras de mulheres e dar mais visibilidade às autoras; e as ilustrações que dão ainda mais beleza à sua produção foram feitas a carvão pela própria autora.

Um buraco com meu nome é dedicado àquelas pessoas que não encontram matilha, a todos que estão à procura de um buraco para chamar de seu — talvez um abrigo, uma toca, ou até mesmo uma cova que nem sempre encontramos quando precisamos de acolhida. Em “Selvageria”, “Fera”, “Corpo Aberto” e “Caverna”, as quatro partes nas quais sua obra está dividida, Jarid escava de modo profundo, com garra e resistência, em busca desses lugares. Seus poemas remetem à lembrança de sua infância, a uma noção de coletividade e identidade, à crítica ao machismo que permeia a vida das mulheres e a uma origem africana por muito tempo negada. Ao iniciar esse texto, citamos o posicionamento político presente nos escritos da autora; essa posição vai muito além da poesia – para usar o famoso slogan feminista da segunda onda, “o pessoal é político”: há muitas partes do livro que revelam o lado político do pessoal, justamente para trazer ao espaço da discussão política as questões até então vistas e tratadas como específicas do privado, rompendo com visões dicotômicas.

O primeiro contato com as poesias de Jarid é como um mergulho. A leitura exige um entregar-se à experiência da empatia, do outro, uma abertura para tudo aquilo que possa vir na enxurrada de palavras em que se realiza este trabalho; é uma ação que busca a criação de um laço estreito com o sujeito poético. Ler a obra da autora não é uma tarefa difícil. Quando falamos em poesia, pensamos em configurações e expressões que sejam “difíceis”, como muitos costumam apontar, mas não é o que se encontra em Um buraco com meu nome. Acima de tudo, os poemas nos apresentam algo novo, atual e naturalmente explicativo por si só; a experiência de ler este livro se faz cada vez mais necessária, precisa ser vivida, experimentada, principalmente por se aproximar tanto da realidade e de assuntos relacionados ao cotidiano.

Outro ponto importante a ser levantado é a preocupação de Jarid em tornar sua obra acessível, de não se restringir a uma forma única e a um modelo fixo de leitura. Seus poemas estão imersos em um jogo de combinações, em que as regras não são determinadas e as fórmulas não estão prontas; assim, um campo de experimentações e possibilidades enormes se abre – não há uma estrutura definida, são poemas que se revelam flexíveis à leitura. Movimentos e combinações diferentes se estabelecem, permitindo um processo infinito de construção e reconstrução de uma nova história, de um novo saber e de uma nova narrativa. Referências simples, interatividade, fortes reflexões e transitoriedade, estes elementos se mesclam e dão originalidade à obra em um novo modo de “fazer” poesia. Como podemos observar em sua poesia intitulada beira:

que mulher que
sou
me pergunto
espelhada
que mulher tem essa pele
desbotada
o que sou de mulher
com cabelos armados
e perigosos
que mulher periga
na linha encardida
da caixa parda

[…]

Um buraco com meu nome nos convida a entender a importância de conhecermos e nos aprofundamos nas obras de mulheres, sobretudo mulheres negras. Em seus versos vejo sua história, que é nossa também. Me vejo e vejo várias mulheres naqueles versos. Poemas que nos chamam, que nos convidam a falar e ouvir. Um buraco que nos dá voz e abrigo.

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