Escrita do corpo

Lubi Prates. um corpo negro. nosotros, 2018.

um corpo negro - capaum corpo negro é o terceiro livro de Lubi Prates, também autora de coração na boca (2012) e triz (2016). Contemplado pelo PROAC com bolsa de criação e publicação de poesia, um corpo negro é prefaciado por Lívia Natália, para quem “a autora desloca uma das bases que sustentaria a beleza da poesia lírica clássica: a capacidade de, num gesto egoico e doloroso, o eu-lírico eternizar a sua dor estabelecendo no poema um lugar de ‘eterno retorno’ do sentimento”, tanto porque na obra de Lubi Prates trata de histórias coletivas que atravessam pessoas negras “com intensidades, tempos e consequências diferentes” quanto porque, no Brasil, as pessoas negras estão sujeitas a uma “cotidianização do sofrimento”. Já a própria Lubi Prates afirma, no texto de apresentação do volume, que seus primeiros poemas foram escritos em 2015, época na qual residia em uma cidade em que quase só havia brancos.

O título do volume já coloca, nesse sentido, uma inquietação: o que significa escrever sobre um corpo negro? O que faz com que um corpo seja racializado – ou seja: reduzido à cor –, quais são as consequências dessa redução, o que disso resulta em termos existenciais? Não obstante, importa reformular essas indagações de modo mais radical, na medida em que se trata de tematizá-las desde uma subjetividade que habita, ela mesma, um corpo racializado; não se trata, em outras palavras, de uma poesia composta à força da abstração, mas de um discurso erigido desde as dores da materialidade – que, para além do agora, estende-se até os legados ancestrais. Antes de tudo, reconhecer-se significa enfrentar as lacunas de uma história escamoteada, como destaca não foi um cruzeiro:

meu nome e
minha língua

meus documentos e
minha direção

meu turbante e
minhas rezas

minha memória de
comidas e tambores

esqueci no navio
que me cruzou
o Atlântico.

Esquecimento imposto, porque forçoso apagamento das singularidades; porque processo que instrumentaliza e reifica o corpo, reduzindo-o à sua função no âmbito de forças produtivas; porque deslocamento que esvazia a potência dos signos e das palavras – o turbante, a língua, as rezas, os tambores –, relegando a existência à mais precária das condições. Não por acaso, em um corpo negro, a vulnerabilidade ocupa um lugar central: que lugar pode ocupar um corpo num espaço em que tudo é um exílio – “apesar dos rostos / quase todos negros / dos corpos / quase todos negros” –, em que todo o território é terra estranha?

A partir daí, impõe-se o desafio: dizer-se – ou seja: desvelar a possibilidade mesma de uma linguagem capaz de nomear o que jaz entre os silêncios; mais do que isso: fazê-lo contra todas as forças que tornam esse ato impossível. Em meu corpo é meu lugar de fala, a tarefa desde o princípio posta como inviável (“meu corpo / eu nomearia / território // se pudesse / inventar / um idioma próprio”) é realizada: contra todas as violências e as invasões, contra todas as opressoras estruturas que impelem à não-nomeação de si, o corpo irrompe entre os escombros, fazendo de si sua fala:

meu corpo
conta
por si só
histórias
além de mim.

Ao inventar sua própria linguagem, um corpo negro fala, sobretudo, para as subjetividades negras que podemos, nele, nos reconhecer – porque “: somos filhos da África / e tudo que contamos através dos nossos corpos / fala sobre nós, mas no profundo da memória / guarda nossos ancestrais”; porque o que somos não se reduz à superfície ou ao agora; porque, quando erigimos nossos corpos em territórios a partir dos quais projetamos nossas vozes, o que dizemos são existências em que em si resguardam ancestralidades.

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