À procura da liberdade

Eliana Alves Cruz. Água de Barrela. Fundação Cultural Palmares, 2016.

Agua_barrEliana Alves Cruz, jornalista e escritora carioca, é a autora de Água de Barrela, obra vencedora do Prêmio literário Oliveira Silveira da Fundação Palmares, em 2015, e recentemente reeditada pela Malê. Eliana participou também de várias antologias e coletâneas; recentemente, lançou o romance histórico-policial O crime do Cais do Valongo, já resenhado aqui no blog.

Começo esta resenha destacando o caráter histórico do romance Água de Barrela, pois a obra nos permite acompanhar os personagens e acontecimentos desde o Brasil colônia até os dias de hoje. A narrativa tem início com a festa de aniversário de uma das personagens – que, após viver momentos de muita dor, dificuldades, alegrias e perdas, torna-se ainda mais forte para vivenciar as dicotomias da vida. Muitas mulheres compõem essa obra; uma delas é Damiana, uma personagem que luta o tempo todo por sua liberdade. Conforme a história vai se desenrolando, ela é tomada pelas lembranças do tempo de lavadeira e encontra nelas mais força para resistir.

Além de ser personagem do livro, Damiana é bisavó de Eliana – com cuja família as personagens presentes na obra se entrelaçam, mostrando como as relações raciais foram se construindo em nosso país. A figura dessa mulher vem para questionar a celebração da liberdade concedida pela Princesa Isabel. O que Damiana questiona é se temos algo a comemorar no tão aclamado dia treze de maio; se esse dia, de fato, teve algum impacto eficaz na vida daqueles que permanecem aprisionados. Não há como comemorar o “Dia da Libertação dos Escravos”, se as bases que moldam a nossa sociedade permanecem reproduzindo a lógica escravocrata; apenas usamos metáforas para esconder essa realidade.

Água de Barrela, título da obra, é uma referência que está diretamente ligada à atividade que essas mulheres desempenhavam: lavar, quarar e passar roupas. Todo o romance está baseado na vida dos nossos antepassados, pessoas negras retiradas à força de África para servirem de mão de obra escravizada em território brasileiro. A pessoa escravizada tornou-se a mão de obra nas plantações de cana-de-açúcar, tabaco e algodão, nos engenhos; e, mais tarde, nas vilas e cidades, nas minas e nas fazendas de gado. O escravizado representava riqueza: era uma mercadoria que, em caso de necessidade, podia ser vendida, alugada, doada e leiloada. Ele era visto na sociedade colonial também como símbolo do poder e do prestígio dos senhores, cuja importância social era avaliada pelo número de escravizados que possuíam. Esse cenário, representado por meio das narrativas das várias mulheres negras presentes no romance, nos ajuda a compreender a importância de um discurso que esteja alinhado às práticas de luta pela liberdade e sobrevivência. Nesse sentido, Eliana busca trazer a revisitação ao passado como ponto principal em sua obra.

Outro ponto que merece destaque é uma espécie de árvore genealógica que a autora apresenta para nós. Ao pensar em genealogia, associamos o tema à busca por antepassados ricos, nobres, europeus. Não conseguimos estender esse pensamento ao tratarmos das pessoas negras. Pense você se, em algum momento, você já teve contato com a genealogia de uma família de pessoas negras. Provavelmente, não. Essas foram perguntas que eu sempre me fiz, sem nunca obter uma resposta. É realmente bem raro conhecer pessoas que possam, de fato, indicar com precisão seus antepassados escravizados, ou até mesmo indicar algum grau de parentesco que esteja acima dos bisavós. Muitos historiadores se preocuparam em demonstrar a existência das famílias cativas, o que evidencia a importância de se considerar a continuidade dessas famílias no pós abolição, saber onde foram parar, onde estão nos dias atuais. Isso é retrato de tudo o que o Estado fez contra os negros escravizados.  Água de Barrela é uma obra que denuncia esse processo e busca a devida reparação que merecem os descendentes desses escravizados. É esse movimento que precisamos fazer constantemente; é preciso ter consciência das injustiças cometidas no passado que permanecem por aí, em cada canto do país. A escravidão “acabou”, mas as histórias daquelas pessoas continuam vivas em cada um de nós.

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