Repensando a nossa prática feminista

Audre Lorde. Irmã Outsider: ensaios e conferências. Autêntica Editora, 2019.

LORDEIrmã Outsider é uma obra cujo título prenuncia as reflexões a partir da perspectiva de alguém que não está dentro dos padrões aceitáveis pela ótica racista e patriarcal das sociedades ocidentais – padrões que a autora da obra, Audre Lorde, chama de “norma mítica”, que compreende apenas a branquitude e a heterossexualidade. Enquanto mulher negra, lésbica e feminista interseccional, Lorde vai, a partir das suas vivências, tecendo reflexões fundamentais sobre a nossa condição de mulheres negras não a partir de ótica distanciada e generalizante, mas a partir de um olhar próximo, atento e ponderado sobre as nossas lutas individuais dentro de um sistema tão opressivo para nós.

O livro traduzido por Stephanie Borges – tradutora negra graças a quem podemos ler em português também obras de bell hooks, Achille Mbembe e Claudia Rakine, por exemplo – reúne quinze textos de Audre, entre ensaios, artigos e conferências. Embora sejam textos densos, a leitura é agradável, convidativa e visceral, ainda que isso contrarie a visão que a própria autora tinha da sua produção em prosa: “[…] comunicar sentimentos profundos de forma linear, em sólidos blocos impressos, era um enigma para mim, um método que não estava ao meu alcance”. A escrita acadêmica de Lorde não apenas transmite reflexões teóricas, mas também estabelece uma conexão com a leitora a partir do compartilhamento de vivências e experiências tão características da nossa negritude.

Irmã Outsider propõe uma análise sobre diversas questões. Dentre elas, é possível destacar um tema recorrente na obra: a linguagem. No texto “A transformação do silêncio em linguagem e ação”, Audre nos coloca diante da necessidade de romper com os silêncios que o racismo e o patriarcado nos impõem por meio dos processos constantes de invisibilização – inclusive dentro dos movimentos feministas que não consideram a questão racial nas suas pautas. Para a autora, romper com esses silêncios é um processo de autoconhecimento, pois nos libertamos dos medos que calam as nossas vozes. Lorde nos mostra que esse é um processo coletivo, porque devemos buscar e ouvir as palavras de outras mulheres negras, ou seja, abrir espaço para que não reproduzamos os mesmos mecanismos de silenciamento do patriarcado.

Ainda sobre a linguagem, em “A poesia não é um luxo”, Audre compreende que a poesia é algo essencial para a nossa existência, porque é através dela que conhecemos o que sentimos. É importante destacar que a escritora não compreende a poesia a partir de um olhar europeu, mas de uma experiência reveladora de nós mesmos.

Os patriarcas brancos nos disseram: “Penso, logo existo”. A mãe negra dentro de cada uma de nós – a poeta – sussurra em nossos sonhos: “Sinto, logo posso ser livre”. A poesia cria a linguagem para expressar e registrar essa demanda revolucionária, a implementação da liberdade.

É a força dessa linguagem poética que nos ajuda na expressão dessa necessidade revolucionária de termos voz, de rompermos com que nos limita e silencia.

Ainda sobre tentativas de silenciamentos, no artigo “Usos do erótico: o erótico como poder”, Audre nos mostra uma perspectiva sobre o erotismo como uma fonte de poder das mulheres. Partindo disso, a escritora afirma que faz parte dos mecanismos de dominação deturpar os principais elementos de poder de um grupo. Tenho que pontuar aqui que a autora não compreende o erótico como experiência estritamente sexual: Lorde aprofunda sua reflexão mostrando que a alienação do erotismo das mulheres foi uma das estratégias utilizadas pelo patriarcado, situação que afastaria das mulheres a compreensão de que uma autorrealização – algo proporcionado pela experimentação do erótico – é possível.

Nosso conhecimento erótico nos empodera, torna-se uma lente através da qual esmiuçamos todos os aspectos da nossa existência, forçando-nos a avaliar cada um deles com honestidade, de acordo com o seu significado relativo em nossa vida.

Outro aspecto pulsante na obra é a crítica a um feminismo que se pressupõe abrangente, mas que se prende à “norma mítica”, tendo sérias dificuldades de reconhecer as diferenças existentes entre o feminismo negro e o feminismo branco, as demandas heterossexuais e homossexuais, por exemplo, além da dificuldade de abrir mão dos próprios privilégios. Em “Carta aberta a Mary Daly”, Audre questiona a invisibilidade das pautas raciais do feminismo na obra Gyn/Ecology, de Daly, especialmente no que diz respeito ao uso de referenciais teóricos sobre essa questão. Já em “Idade, raça, classe e sexo: as mulheres redefinem a diferença”, a autora vai além do campo acadêmico, trazendo a discussão para aspectos mais gerais da vida cotidiana de mulheres brancas e não-brancas, lésbicas e heterossexuais, apontando que a ideia de sororidade não se aplica às mulheres fora da “norma mítica”. Audre reforça a necessidade de abrir espaço para pautas diversificadas, especialmente das mulheres negras e lésbicas, rejeitando a noção de que somos nós, mulheres invisibilizadas, que precisamos nos responsabilizar pela educação de quem auxilia na manutenção de sistemas opressores. Pensar um feminismo com pautas mais abrangentes, me faz lembrar, inevitavelmente, da mais famosa frase de Audre, expressa no texto “Os usos da raiva: as mulheres reagem ao racismo”:

Não sou livre enquanto qualquer outra mulher for prisioneira, ainda que as amarras dela sejam diferentes das minhas. E não sou livre enquanto uma pessoa de cor permanecer acorrentada. Nem é livre nenhuma de vocês.

Ainda sobre esse texto, Lorde nos fala sobre o sentimento da raiva como um instrumento de transformação da realidade. Inevitavelmente, nós, mulheres negras, passamos por traumáticas experiências racistas, situações que favoreceram a instauração da raiva em nós. A partir disso, Audre nos convida a canalizar esse sentimento em prol de mudanças nos nossos espaços de ação, isto é, transformar a dor em luta. Se a nossa presença ou as nossas narrativas causam incômodo para a branquitude, devemos canalizar a raiva que sentimos para continuar propagando as nossas vozes, buscando modificar as estruturas moldadas pelo racismo.

As reflexões de Audre Lorde em Irmã Outsider são atemporais, especialmente se considerarmos que sua publicação se deu há mais de trinta anos (em 1984, para ser mais exata). Isso nos mostra a importância dessa obra para a literatura feminista. Audre nos ensina que a nossa luta não deve se limitar a uma só frente, mas deve estar em todas as esferas da nossa vida: enquanto mulher negra, lésbica, professora, escritora, mãe de dois filhos, Lorde deixa nos textos de Irmã Outsider fragmentos de sua trajetória de luta incansável por uma sociedade mais justa e mais igualitária, com mais ação e menos silenciamentos.

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