A subjetividade de uma unicórnia preta

Audre Lorde. A Unicórnia Preta. Relicário Edições, 2020.

No dia 18 de fevereiro, Audre Lorde completaria 87 anos e, a fim de homenageá-la, decidi mergulhar em sua obra. Comecei pelo essencial Irmã Outsider: Ensaios e Conferências; em seguida, fui presenteada com a leitura de seu livro de poemas A Unicórnia Preta, ao qual dedico essa resenha.

Com o prefácio assinado pela crítica literária Jess Oliveira e tradução de Stephanie Borges – que participou também como tradutora em obras de Jaqueline Woodson, bell hooks, Claudia Rankine entre outras escritoras negras – , a editora Relicário Edições lançou em 2020 uma edição bilíngue dessa obra marcante de Audre Lorde.

Nos 67 poemas de A Unicórnia Preta, publicado pela primeira vez pela primeira vez em 1978, Audre Lorde aborda as questões que rondam a sua subjetividade enquanto mulher negra em diáspora – lésbica, feminista, poeta, mãe, resgatando a sua ancestralidade e espiritualidade. Com a autoridade de uma excelente poeta, Audre Lorde transborda em seus escritos o seu poder e a sua sensibilidade na percepção do mundo. Portanto, suas questões traduzem os sentimentos de muitas de suas leitoras, dos anos 70 até hoje.

“[…] Eu sonho com a sua liberdade
como uma vitória minha
e a vitória de todas as mulheres escuras
que renunciaram às vaidades do silêncio
que guerreiam e choram […]”

A obra de Audre Lorde nos traz uma reflexão sobre o fato de que muitas dores do povo negro são atemporais. Essa atemporalidade nos sufoca com a falta de esperança de uma vida negra que possa ser vivida sem as amarras e consequências de um passado de escravidão. No poema em que Lorde dedicou a Assata Shakur – integrante do antigo Partido Pantera Negra e do Exército para a Libertação Negra –, chamado “Para Assata”, analisando a estrofe destacada acima, ao considerarmos que o assassinato é uma privação da liberdade de nossos corpos, essas palavras servirão também ao caso de Marielle Franco e tantas outras mulheres negras impedidas de usar a própria voz em nome da justiça, em nome da liberdade de seu povo.

“[…] urrando com minha dor antes do amanhecer na cidade onde está aberta a temporada de caça a crianças negras onde minha pior canção de ninar se repete várias vezes.”

Ainda refletindo sobre a atemporalidade dos escritos de Lorde, pergunto ao Estado: a temporada de caça a crianças negras jamais cessará? Atravessaremos séculos de dor e sangue derramado de todo o nosso povo sem nenhuma comoção da sua parte? Quando a morte de nossos filhos deixará de ser um projeto? No poema “A Mesma Morte Várias e Várias Vezes” ou “Canções de Ninar São Para Crianças”, Audre Lorde escreve sobre a morte de Clifford Glover, uma criança de dez anos de idade assassinada pelo policial Thomas Shea nos Estados Unidos em 1973. Assim como ocorre nas inúmeras histórias cruéis que nós conhecemos e são rotina nos noticiários brasileiros, o policial foi absolvido.


Audre Lorde, por ser, como ela própria definiu, preta, lésbica, mãe, guerreira, poeta, construiu muitos poemas voltados para as dores de uma unicórnia preta, mas o amor também está presente em seus escritos, com a sincera intensidade dos amores que viveu.

“[…] meu corpo
escreve dentro da sua carne
o poema
que você fez de mim. “

Os temas abordados neste livro de poemas tocarão de forma profunda cada leitora, o que torna a releitura inevitável. Considerando que cada leitura provoca em nós um efeito que se relaciona com cada momento de nossas vidas, confesso que os escritos de amor de Audre Lorde seguraram a minha atenção e as minhas emoções, assim como Lorde segurava a mulher que ela amava. Os poemas de Audre sobre os seus sentimentos de mulher que ama mulheres, por atribuir representatividade, nos tocam ao encontrarmos nossos sentimentos mais profundos em uma obra publicada em uma sociedade que nega a humanidade de pessoas LGTBQI+.

Audre Lorde foi uma poeta apaixonada pelo ofício. Seus ensaios são produto de todos os temas que ela discorreu em seus poemas, portanto toda a obra de Audre Lorde se entrelaça e são diferentes formas de quebrar o silêncio sobre sua subjetividade – a subjetividade de uma unicórnia preta.

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