Passos fincados na memória do afeto

Scholastique Mukasonga. A mulher de pés descalços. Nós, 2017.

Quando eu morrer, quando vocês perceberem que eu morri, cubram meu corpo. Ninguém deve ver meu corpo, não se pode deixar ver o corpo de uma mãe. Vocês, que são minhas filhas, têm a obrigação de cobri-lo, cabe somente a vocês fazerem isso.

71G+m+n21LLé com esta fala que a escritora ruandesa Scholastique Mukasonga nos apresenta a personagem central de sua narrativa: Stefania, sua mãe. A mulher de pés descalços, lançado no Brasil em 2017, é um romance autobiográfico, permeado de boas e nefastas memórias: memórias que nos levam do riso ao pranto; memórias que descrevem toda a magnitude do amor, do afeto e da cumplicidade, e que por isso nos acalentam do lado de fora desta narrativa – mas também somos colocadas diante de memórias que denotam toda a perversidade do ser humano provocada pela, como afirmou Scholastique em uma entrevista na Flip 2017, “recusa do outro”.

Entre os buracos que ficam depois de grandes perdas, o maior deles é o buraco-saudade, como o descrito pela voz narradora do conto “Maria”, de Conceição Evaristo – quando, para amalgamar os sentimentos do ex-homem de Maria, a voz onisciente nos diz que “Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele”. E um dos maiores buracos-saudade que fomentam essa escrita memorialística foi a impossibilidade da autora de realizar o único pedido de sua mãe, que foi brutalmente assassinada pelos hutus, junto de seus outros 26 parentes e toda aldeia constituída por tutsis; Scholastique, tal qual os filhos de Maria, teve a existência de sua mãe roubada perversamente. Nesta lastimosa ocasião da história de Ruanda, a escritora ruandesa não estava lá para cobrir o corpo mutilado por facões de sua mãe, pois já estava estudando na França – e, muito possivelmente, se estivesse lá também teria sido assassinada e nós, leitoras, não estaríamos aqui discutindo essa obra rica em elementos culturais de um povo ancestral que, por intolerância humana ao diferente, foi quase toda dizimada. As palavras, então, são as únicas capazes de servir como mortalha para o corpo de Stefania:

Mãezinha, eu não estava lá para cobrir seu corpo, e tenho apenas palavras – palavras de uma língua que você não entendia – para realizar aquilo que você me pediu. E estou sozinha com minha pobres palavras e com minhas frases, na página do caderno, tecendo e retecendo a mortalha do seu corpo ausente.

O pano de fundo desse romance é a guerra civil em Ruanda, que ocorreu em 1994, resultando no genocídio de mais de 800 mil ruandeses – dentre eles, Stefania –, sendo a maioria tutsi, em apenas 100 dias. Importante ressaltar que a história do país é marcada pelos conflitos entre esses dois grupos étnicos: hutus (90% da população) e tutsis (9% da população). Quando Ruanda estava sob domínio belga, os tutsis, mesmo sendo minoria, foram escolhidos pela metrópole para governar o país, porque os europeus os consideravam mais próximos de si devido aos traços mais finos e o tom de pele mais claro; por isso, era a etnia considerada superior na avaliação belga – aqui é essencial destacar que essa noção de superioridade étnica foi implementada, alimentada e retroalimentada pelos brancos quando, por exemplo, em 1930 passou a ser obrigatório emitir, na identidade, a etnia dos habitantes. Isso muda no início dos anos 1960, quando Ruanda se torna independente da Bélgica e os hutus chegam a poder: dá-se, neste momento, o prelúdio da guerra civil ruandesa. Iniciam-se perseguições e represálias contra os tutsis, que são arrancados de suas casas e exilados em Bugesera que, segundo a narradora, “parecia hostil o bastante para tornar ainda mais incerta a sobrevivência dos ‘exilados do interior’”. É neste contexto de exílio – palavra recorrente ao longo da narrativa – que o romance é construído.

Scholastique assume o lugar de narradora personagem ou contadora de história – título que ela reivindica, já que diz dever sua habilidade como escritora à mãe, uma “contadora de história reconhecida”; e aqui já esbarramos em um costume tradicional e ancestral, que é a importância da oralidade na construção de diferentes culturas, junto a uma tentativa de manutenção deste costume – e reconstrói suas memórias da infância: como Scholastique nasceu em 1956, ainda era uma criança na época em que transcorreram os episódios narrados.

A partir daí, parece-me também interessante pensar nessa escrita como uma estratégia de reconstrução e perpetração de memória: para que essa memória não se esvaia ou morra dentro dela, Scholastique escreve, ela a cristaliza através da escrita. Não é por acaso que Scholastique começa a escrever dez anos após o genocídio e diz ser a escrita seu dever de memória; ela pondera: “escrevo para salvaguardar a memória”. E, ao longo da narrativa, percebemos o uso recorrente da descrição, uma ferramenta fundamental para estabelecer e fincar, de algum modo, os costumes, os valores e a cultura dos tutsis.

Os desterrados construíram casas improvisadas e, aos poucos, formaram novos vilarejos – Gitwe, Gitagata, Cyohoha; a família de Scholastique vivia em Gitagata. Apesar de ser uma terra hostil, eles conseguiram cultivar e se manter vivos; para além disto, conseguiram, dentro deste contexto inóspito, reverberar zelo e cuidado e, no romance, Stefania é o maior exemplo disto. Em muitos momentos ela é percebida e compreendida por nós, leitoras, como uma mulher incansável, não só pela tentativa de passar para seus filhos e comunidade costumes e crenças ancestrais, mas também pelas suas inesgotáveis ideias de construir esconderijos para que seus filhos se refugiassem em caso de terem seu inzu – morada ancestral – invadida por soldados hutus. Na mesma medida que somos tomadas de orgulho pela força desta figura, afirmamos: nenhuma mulher preta deveria ter que ser tão forte assim! Segundo a narradora, Stefania vivia em estado de alerta, com medo de, a qualquer momento, ter seu inzu invadido, saqueado e ter sua família violentada; por isso, sua única razão de viver era: “salvar seus filhos”. Observe este trecho a seguir, em que esta preocupação se manifesta de modo pulsante:

Mas era preciso prever tudo: às vezes, os soldados surgiam mais rapidamente do que o ouvido muito afinado de minha mãe pudera detectar. Para o caso de não termos tempo de chegar até o esconderijo, ela deixava, no meio de grandes arbustos de vegetação selvagem, um monte de mato seco, um arbusto impenetrável onde só nós, meninas, podíamos nos aninhar durante o estado de alerta. No mato, ela tinha descoberto esconderijos que pareciam mais seguros. Encontrara as tocas mais fundas cavadas por tamanduás, e estava certa de que poderíamos escorregar para dentro delas e, em caso de necessidade, com a ajuda de Antoine, ela ampliaria o buraco e camuflaria a entrada com um aglomerado de mato e troco […] Mamãe não deixava nada nas mãos do acaso. Normalmente, quando anoitecia, fazia um ensaio geral. Assim, sabíamos exatamente como entrar no matagal cheio de espinhos, como nos esconder embaixo do mato seco.

É perceptível, em diferentes momentos da narrativa, a fragilidade da memória – que, por ser seletiva e involuntária, muitas vezes se apresenta de maneira turva. E isso fica evidente, por exemplo, quando a narradora pergunta à sua mãe o que aconteceria se o tamanduá voltasse para sua toca enquanto elas estivessem lá escondidas e ela diz não lembrar da resposta dada por sua mãe; ou seja, ela tem apenas parte dessa memória – de algum modo, a contestação de Stefania foi excluída da memória de Scholastique.
A manutenção da cultura se evidencia em diferentes episódios narrados, como os rituais para o casamento, que só seriam validados através da oferta de uma vaca para a família da mulher – prática quase extinta no vilarejo de Gitagata, já que os tutsis, em 1959, tiveram suas terras e vacas queimadas pelos hutus. Contudo, Stefania, que é descrita como uma casamenteira de mão cheia, não aceitou celebrar o casamento de seu filho Antoine sem oferecer uma vaca, já que “segundo ela, um dote que não estivesse de acordo com a tradição atrairia a infelicidade para a nova família”, e ficou um bom tempo juntando dinheiro para conseguir comprar o animal. Ou quando Stefania insistia em agradecer ou pedir ajuda a Ryangombe, o mestre dos Espíritos, além da Virgem Maria – que é um resultado direto da violência que foi todo o processo de catequização e a tentativa de exterminar por completo as crenças africanas; segundo a narradora: “Apesar de boa cristã, mamãe dizia que não se podia rejeitar ninguém, e menos ainda o Deus ancestral”. Mas gostaria de me debruçar mais atentamente à construção do inzu feita por Stefania e Antonie, já mencionado anteriormente, que configura, para além da ideia de manutenção de cultura, um lugar de troca, cuidado e, sobretudo, amor. Era nesta casa – a narradora diz preferir manter o nome em kinyarwanda porque sua tradução para o francês assume um sentido pejorativo, como “barraca”, por exemplo – que Stefania acreditava ser possível “levar uma verdadeira vida de mulher, uma verdadeira vida de mãe de família”, tanto que foi a casa que devolveu a ela todo o prestígio e poder atribuído a mãe de família. E, certamente, colaborou para a construção de lembranças afáveis da narradora, como se observa nessa descrição carregada de afeto e saudade:

[…] na minha memória, o inzu […] é uma casa cheia de vida, com risadas de criança, conversas alegres de moças jovens, historias murmuradas à noite, rangido de pedra moendo os grãos de sorgo, barulho de cerveja fermentada e, na entrada, a batida ritmada do pilão. Eu queria tanto que isso que escrevo me levasse até a casa de Stefania.

É interessante notar que neste trecho há uma mudança de tempo verbal: o romance é majoritariamente escrito no passado e o presente aparece excepcionalmente em alguns fragmentos; neste, em especial, ele é responsável por gerar em nós, leitoras, uma sensação total de presentificação deste passado – um passado visceral, que grita no tempo presente desta narradora.

A mulher de pés descalços é um romance sobre dor, porque a perda – ainda mais essa perda abrupta que Scholastique viveu – nunca é algo fácil de ser encarado, mas ela não é o foco central da narrativa. Esta narrativa é sobre a fertilidade do amor e da solidariedade: não importando quão hostil seja a terra, esse amor floresce, ele sempre florescerá, precisamos confiar nisto. Esta narrativa é sobre o choro orgulhoso de Stefania ao ver sua filha sendo considerada a melhor aluna da turma, por isso dando a ela o dinheiro que juntou para comprar seu prêmio – um pão –, e, no final, vislumbrando essa filha voltar “quando estava com o pão tão desejado na mão” para dividir o alimento com ela, duas irmãs e sua amiga Cândida. Como disse: trata-se de uma narrativa, sobretudo, de amor.

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