Cidinha da Silva, poeta

Na orelha de Canções de amor e dengo (Edições Me Parió Revolução, 2016), escreve Cidinha da Silva: “Não sou poeta, cometo alguns poemas e nesse ano comemorativo de 10 anos de carreira como escritora resolvi mostrá-los. São parte de mim e do meu trabalho e agora vão para a rua”. Esse é o tom que predomina em todo o texto publicado na orelha: o de uma escritora que se justifica pelo que entrega ao público; que afirma não se levar a sério como poeta; que qualifica os próprios escritos como “poeminhas”. Enquanto leio estas palavras, vêm-me à mente aquelas com a qual Maria Firmina dos Reis inicia o Prólogo de Úrsula: “Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor”. Decerto são diferentes as circunstâncias: Maria Firmina lançava mão do mesmo registro presente em tantos outros textos prefaciais de escritoras oitocentistas, temerosas ou hesitantes diante da recepção de um público patriarcal – que, frequentemente, oscilava entre a indiferença e a hostilidade. A certa altura, Maria Firmina simula um breve diálogo como leitor, que lhe indaga: “Então por que o publicas?”; “Como uma tentativa”, começa a responder a autora. Talvez a Cidinha da Silva que afirma “cometer” poemas também os veja como uma “tentativa”, afinal. Contudo, se em tanto diferem a escritora maranhense oitocentista e a escritora mineira contemporânea, um ponto indiscutivelmente as assemelha: o fato de que ambas são escritoras de inegável competência, que transitam por diferentes gêneros. Maria Firmina nos legou, além do romance, contos e poemas; Cidinha da Silva é cronista, dramaturga, contista – e, sim: poeta.

Assim afirmo porque, se Cidinha afirma não se levar a sério como poeta, cabe a nós não levar a sério essa afirmação. Embora se considere desprovida do repertório técnico próprio da poesia, fato é a trajetória de Cidinha como escritora lhe concedeu o mais essencial: o domínio rítmico; o arranjo sonoro; a construção das imagens; a produção do texto como um objeto estético. E tudo isso avulta em Canções de amor e dengo – tanto nos escritos de cariz aforístico quanto nos poemas propriamente ditos.

Vejamos, por exemplo, o poema em prosa “Pistas”:

O encanto infantil pelas trovoadas era sinal ainda latente do trovão que habitava seu corpo. Assim também a pimenta. Ela que já soltava fogo pelas ventas.

A aliteração e a assonância se fazem presentes em todo o texto, enfatizando a clivagem entre a suavidade alusiva a um período idílico, indiciado pelas nasais, fricativas e oclusivas (encanto/infantil) e a transformação que a seguir tem lugar, em que as oclusivas e fricativas ganham ênfase (trovoadas/latente/trovão/habitava). Num momento intervalar, a sonoridade inicial é recuperada (também/pimenta); mas, ao final, o retorno das fricativas (soltava/fogo/ventas) demonstra como passado e presente se entrelaçam, traduzindo em sons os sentidos.

Não menos notável é o apuro formal de um poema como “Corpo”:

Um corpo

Aconchego

Sem amor

Só movimento

Mas tem valor

Dardo no desassossego

Porto alegre para o ego

Companhia para o fondue

Carvão no verão

Combustão

Alaúde no deserto

Outra vez o corpo

Dengo e técnica

Só movimento

Mas tem valor…

Atenhamo-nos aos aspectos métricos, notando como o poema se inicia com um movimento que parte do dissílabo, avança para trissílabos no segundo e no terceiro versos (mais especificamente, anapestos, o que constitui um crescendo) e chega aos tetrassílabos, no quatro e no quinto versos (em coriambo e dijambo). Vale notar como isso traduz, em termos ritmos, o deslocamento daquele “corpo/aconchego” mencionado no poema, de modo a enfatizar uma aproximação abrupta, a princípio, mas que logo encontra a sua cadência. A naturalização dessa presença se evidencia pelo recurso aos redondilhos, que predominam na seção medial do poema (do sexto ao nono versos) – ora dilatando-se para o octossílabo, ora tendendo ao redondilho menor; assim, preserva-se a sugestão de movimento, sem qualquer prejuízo ao conforto propiciado pela intimidade (explicitado no verso mais longo da composição, exatamente em sua metade: “Companhia para o fondue”). Na parte final do poema, a maior oscilação métrica expressa uma turbulência: em dois momentos, redondilhos menores são sucedidos por trissílabos (já agora, um anapesto e um anfímacro, o que não permite uma estabilização – apesar do redondilho maior que retorna entre as duas sequências). Ao fim, a retomada do quarto e do quinto versos encerra o poema insinuando a aproximação de um novo clímax – o que é, ainda, enfatizado pelas reticências que arrematam a composição.

Esses brevíssimos apontamentos, que se limitam a dois dos poemas compilados em Canções de amor e dengo, têm o mero propósito de evidenciar que, a despeito do que sugerem as palavras presentes na orelha do livro, a obra poética de Cidinha da Silva demanda uma leitura atenta. Trata-se de um conjunto de escritos que tematiza uma questão de crucial importância – a afetividade da mulher negra –, fazendo-o com o rigor próprio de uma escritora que domina o seu ofício.

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