O encantado e a presença feminina em narrativas evaristianas (II)

Esta é a segunda parte do ensaio de Maria Verônica da Silva sobre Histórias de leves enganos e parecenças, de Conceição Evaristo.

Continuo a ler Histórias de leves enganos e parecenças refletindo sobre a força do feminino que engendra boa parte dos contos e da novela que o compõem. A menina e a gravata, por exemplo, já se inicia com uma contrariedade na escolha do nome da personagem principal, Fémina Jasmine, visto que ela representa o extremo oposto dos ideais femininos estabelecidos pela sociedade patriarcal: desde de pequena, ela demonstra um certo encanto por gravatas, o que causa total estranhamento em todos à sua volta. A beleza deste conto consiste não apenas no fato de Fémina não ter se deixado curvar ante esse imaginário sexista, mas também na exaltação à beleza negra:

“E foi assim engravatada, que Fémina ao terminar o ensino médio se apaixonou por Túlio Margazão, um dos meninos mais bonitos do colégio. O rapazinho tinha uma elegância ímpar. Em um concurso de beleza, os dois foram distinguidos como o mais belo casal do clube que seus pais frequentavam. A distinção se repetiu quando os dois foram eleitos o casal ébano da histórica associação ‘Lírio Negro’. E como era de se esperar, a família e os mais íntimos puderam contemplar a beleza de Fémina. Ela se apresentou enfeitada por uma gravata, que sobressaía por entre os longos dreads, espalhados por suas costas e obras.”

Impossível ler “casal ébano” e não enveredar pelos caminhos da canção popular, imediatamente ouvindo a voz rouca da Alcione, cantando: “É, você é um ébano lábios de mel/ Um príncipe negro feito a pincel/ É só melanina cheirando à paixão”, que participa justamente da exaltação desta beleza.

Esta força feminina também aparece sob a representação da mãe, a matriz, a fonte de toda a vida. Uma força que também se manifesta dentro de um coletivo feminino, tal qual ocorre na novela Sabela, quando Vovó Sabela – vó da narradora – precisa esconder sua filha de mesmo nome – trata-se de uma linhagem de Sabelas –, pois, depois de ter sido condenada por bruxaria, tamanha sua sabedoria, ficou guardada em um casulo em forma de útero feito de fios das barbas dos anciãos – perceba o encantado aqui – para que pudesse terminar de crescer. Isso ocorre porque sua sentença havia sido a morte por afogamento; isso é: este novo útero impossibilitava que as pessoas se aproximassem da menina, o que acabou, futuramente, gerando uma revolta do povo contra a Vovó Sabela. É importante ressaltar que, antes do nascimento da menina Sabela, o rio onde ela nasceu – a natureza é um outro aspecto vivaz na escrita evaristiana neste livro – estava seco há anos; contudo, “quando as águas do parto começaram a vazar do meio das coxas de Vovó, antes mesmo de Sabela ser expelida, o rio começou a encher” – outra manifestação do encantado. A partir daí, as mulheres que eram estéreis começaram a procriar depois que se banhavam neste rio – será que era a benção de Oxum? – . Depois disso, Vovó Sabela ganhou respeito de toda a cidade, afinal, ela devolveu àquele lugar a possibilidade de continuar existindo por meio da geração de mais e mais vidas. Contudo, esse quadro mudou quando a menina foi condenada à morte e guardada no casulo feito de pelos dos anciãos. Neste momento, a mãe da menina precisou se distanciar do centro da cidade, a fim de assegurar a vida de sua pequena. Mas como fazer isto, se os “censores da cidade” a vigiava dia e noite? É então que nos deparamos como uma grande organização feminina:

“Uma rede tecida por mil mãos pode prender um leão… E foi o que aconteceu. A ajuda veio de mulheres, aquelas que reencontraram a fecundidade, ao se banharem no leito do rio alimentado pelas águas amnióticas de Vovó Sabela. Essas mulheres tomaram, cada qual, um de seus próprios olhos, o mais enxergador, colocando no corpo de Vovó, para eu ela se tornasse a mulher de mil olhos. Assim ela poderia ver tudo, até a essência do invisível […] Seu olhar, chama incandescente, força coletiva das outras mulheres, queimava todo inimigo que atentava contra ela, pelos caminhos.”

O ponto essencial a se observar no excerto acima é a imprescindibilidade dos olhos para esta matriarca; olhos que aparecem pela primeira vez na capa do livro, e cujo significado só consegui compreender quando cheguei nesta parte da novela. Tudo pareceu, então, ganhar outro sentido; aquele desenho, que me parecia tão abstrato, agora conversa comigo, me olha. São olhos num corpo estranho e que parece carregar algo. São olhos femininos que me fariam companhia enquanto folheava cada folha do livro e que me afagariam quando, com os olhos marejados, eu lesse sobre Dolores Feliciana, que perdeu seus três filhos vítimas de violência. TRÊS FILHOS. Chiquinho, Zael e Nato. Lembrei-me de Maria – personagem de outro conto de Conceição – porque, quando Dolores disse que “eu sozinha, dona da minha dor e de meu desespero, verti sangue e mais sangue”, eu sabia que aquele “buraco-saudade” era banhado num mar de absoluto plasma. Mas os olhos femininos me ampararam, porque são força. Dolores finaliza sua fala se denominando “Mater Dolorosa”, em maiúscula, assim como aparece escrito “Mamãe” e “Vovó”, ao longo de toda a narrativa de Sabela, tal qual apareceu quando estava referindo-se a Oxum noutro conto. Isto porque Dona Iduína, Andina Magnólia – de cujo corpo saía o pão sagrado para seus filhos –, Dolores Feliciana, Vovó e Mamãe Sabelas e tantas, tantas outras são a própria personificação de uma entidade: deusas do amor; deusas da multiplicação; deusas da partilha; deusas da compreensão; deusas da contação de histórias… Todas juntas num só ser.

Elza tinha razão. Deus é mãe e todas as ciências femininas!

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