O encantado e a presença feminina em narrativas evaristianas (I)

Esta é a primeira parte do ensaio de Maria Verônica da Silva sobre Histórias de leves enganos e parecenças, de Conceição Evaristo.

Em Histórias de leves enganos e parecenças – constituído por doze contos curtos e uma novela, que finaliza o livro –, somos convidadas a imergir num mundo mágico evaristiano: a magia e/ou crença permeia boa parte das narrativas que compõem este livro. A própria autora, Conceição Evaristo, nos afirma que “em Histórias de leves enganos e parecenças, eu quis dar valor a estes elementos mágicos, a esta fantasia, ou até mesmo à fé, de que os povos subjugados têm necessidade, o que, por exemplo, em um dado momento a gente poderia chamar de alienação”. Além desta perspectiva, nos é oferecido, no posfácio do livro, uma outra possibilidade de olhar para estes episódios narrados que fogem à nossa racionalidade, é dizer, pensá-los como parte do realismo animista; isso porque, segundo a Professora Doutora Assunção de Maria Souza e Silva:

“[…] a existência da atuação de forças da natureza, da alteração dos fenômenos que modificam a ordem natural das coisas, a crença em entidades capazes de intervir na rotina dos personagens, etc. são estratégias concebidas por um modus operandi revelador da maneira de pensar, de ser e de existir de uma dada comunidade.”

É interessante que a “narradora-ouvinte” – como muito bem nomeia Silva a esta voz que nos conta-encanta, afinal, como nos afirma a própria narradora: “Do que eu ouvi, colhi essas histórias” – prepara a nós, leitoras, para esta imersão no encantado, quando pondera que “Cada qual crê em seus próprios mistérios. Cuidado tenho. Sei que a vida está para além do que pode ser visto, dito ou escrito. A razão pode profanar o enigma e não conseguir esgotar o profundo sentido da parábola”; e, ao virarmos a página, nos deparamos com o conto que abre o livro, Rosa Maria Rosa. A personagem de nome homônimo ao título era uma mulher linda, mas que, segundo a narradora, apresentava algo atípico: mantinha os braços sempre fechados, como se eles fossem a prisão de seu próprio corpo. Um corpo trancado, que não correspondia aos toques que iam de encontro a ele, a não ser se partissem de mulheres mais velhas e crianças: as únicas que eram enlaçadas pelos braços de Rosa Maria Rosa. E, então, nos deparamos com uma marca muito comum da prática da contação de histórias – tal qual nos havia anunciado a narradora antes de adentrarmos completamente na ficção –, que se manifesta com o uso do verbo “contar”: “Contavam também que o aconchego de Rosa era tão doce, que, uma vez abraçados por ela, quando se achavam no regaço da moça, o sentimento de torpor era tão intenso, que ficava esquecido o desejo de olhar para ela”; e nós, do lado de cá, confabulando mil e uma possibilidades para explicar o grande conflito do conto, logo somos surpreendidas pelo encantado e o segredo nos é revelado: “cada gota de suor que pingava das axilas de Rosa, pétalas de flores voavam ao vento.”

Outro episódio em que o encantado se manifesta é no conto A moça do vestido amarelo, que carrega uma beleza enigmática impressionante ao narrar a história de Dóris da Conceição Aparecida, que desde muito pequena tinha uma ligação forte com a cor amarela; inclusive, foi a primeira palavra balbuciada e depois dita pela menina. Aos sete anos ela começa a sonhar com uma moça de vestido amarelo, e então começamos a nos perguntar: quem será essa moça? Todos da família de Dóris acreditam que se trata de uma amiga imaginária, exceto a avó, a mais velha da família, que segundo a “narradora-ouvinte”, sabia quem era moça; mas isso não fica explícito em momento algum para nós, leitoras, que vamos juntando as informações que nos são oferecidas para, ao final do conto, desvendarmos esse mistério. A reação do padre, no dia da primeira comunhão da menina, ao saber do sonho, nos direciona para uma possível resolução do conflito:

“Com um tom de contrariedade na voz, olhou severo para a vó de Dóris, como se ela tivesse alguma culpa sobre o sonho da menina. E mordendo as palavras respondeu que deixasse estar, cada qual sonha com que está guardado no inconsciente, nem a força do catecismo, da pregação e nem as do castigo apagam tudo.”

É então que algumas questões nos atravessam: o que poderia deixar esse padre tão contrariado? O que teria a ver a moça do sonho com o catecismo? Este “inconsciente” estaria ligado à ancestralidade, por isso era algo mais evidente para Dona Iduína? E logo nos deparamos com a magia marcadamente evaristiana, quando nos é descrito o momento da comunhão da menina:

“Ruídos de água desenhavam rios caudalosos e mansos a correr pelo corredor central do templo. E a menina em vez de rezar Ave-Maria, oração ensaiada por tanto tempo, cantou outro cumprimento. Cantou e dançou como se tocasse suavemente as águas serenas de um rio. Alguns entenderam a nova celebração que ali acontecera. A avó de Dóris sorria feliz. Dóris da Conceição Aparecida, cantou para nossa outra Mãe, para a nossa outra Senhora.”

Era Oxum! A moça do vestido amarelo era Oxum. Percebam que em momento algum isso nos é dito; mas, tal qual é necessário tecer fios da memória para contar-recontar histórias, nós, leitoras, vamos tecendo fios desta contação, remendando aqui e acolá, juntando as referências que nos são dadas: Oxum, filha de Iemanjá e Oxalá, é a orixá do rio; é a deusa do amor, do ouro, por isso, o amarelo é usado para representá-la. No sonho de Dóris, a moça vestia um vestido amarelo, e na comunhão a pequena menina tem sua dança comparada aos movimentos do rio, onde vive Oxum – eis a beleza enigmática deste conto. Notem também como aparece escrito a palavra “Mãe”, com a inicial em maiúscula, para demonstrar reverência e respeito àquela a quem se dirige o canto: uma divindade. Divindade esta que também faz parte da crença desta narradora-ouvinte, como nos comprova o uso do pronome possessivo na primeira pessoa do plural, “nossa”. Impossível também não comentar o sincretismo religioso, prática que contribuiu para a preservação da religiosidade de matriz africana, que fortemente aparece nesta narrativa – da mesma forma que aparece na novela Sabela, de que trataremos mais adiante, em que, ao mesmo tempo em que a matriarca roga por Santa Bárbara, ela finaliza suas preces entoando cantos para Iansã, orixá que rege os raios e as tempestades.

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