A terceira vida de Grange Copeland

Alice Walker. A terceira vida de Grange Copeland. Tradução de Carol Simmer e Marina Vargas. José Olympio, 2020.

A terceira vida de Grange Copeland foi publicado em 1970, quando Alice Walker tinha 26 anos; apenas três anos antes ela havia estreado como escritora, publicando sua primeira narrativa curta – e, em 1968, viera a lume o livro de poemas Once. O romance teria um impacto decisivo na trajetória de Walker, abrindo portas que lhe possibilitaram construir uma sólida carreira como escritora e ensaísta; treze anos depois, ela se tornaria a primeira escritora negra galardoada com o prêmio Pulitzer de ficção, conferido a A cor púrpura. Não obstante, a obra encontrou críticas bastante negativas na comunidade negra – assunto que retomarei mais à frente. O primeiro romance de Alice Walker chega ao Brasil pela José Olympio, em edição com bela capa de Leonardo Iaccarino sobre ilustração de Renan Araujo. Carol Simmer e Marina Vargas propõem uma tradução fluida, que enfrenta corajosamente o dificílimo desafio de dar conta da sofisticada escrita de Alice Walker, embora em alguns momentos adote soluções problemáticas (como traduzir “warm brown hands” como “mãos quentes e morenas”, algo especialmente notável em se tratando da obra de uma escritora negra).

A publicação de A terceira vida de Grange Copeland no Brasil não poderia ocorrer em ocasião mais propícia. Num cenário em que as questionamentos acerca de gênero e raça têm sido objeto de muitas discussões, tanto no âmbito social quanto no acadêmico, o público leitor brasileiro tem acesso a um romance no qual Alice Walker narra a história de uma família do Sul dos Estados Unidos ao longo de três gerações, entre as décadas de 1920 e 1960. O personagem cujo nome se faz presente no título da obra, Grange Copeland, é uma figura central: sua trajetória tem início nas plantações no sul da Geórgia (sua “primeira vida”), continua em seu deslocamento para Nova Iorque ( a “segunda vida”) e se encerra com o retorno ao sul (a “terceira vida”). A tradição crítica leu a obra como um bildungsroman, frequentemente ressaltando seus aspectos épicos; e é fato que, já nessa primeira obra, Alice Walker evidencia seu notável domínio da arquitetura romanesca.

Se a trajetória de Grange Copeland diz respeito à luta por sobrevivência, trata-se também de um complexo processo de construção e reconstrução da masculinidade. A tarefa de enfrentar um mundo que de inúmeras formas o hostiliza enseja experiências que evidenciam, para o personagem, uma consciência da falibilidade que o afeta profundamente como homem negro; e é nessa condição de homem negro que, ao chegar à sua terceira vida, o personagem reexamina seu percurso, reconhece seus erros e assume sua responsabilidade. Não obstante, a compreensão da trajetória de Grange não pode ser compreendida à parte do errático percurso de seu filho, Brownfield, que demanda um lugar entre o conjunto dos personagens mais trágicos da literatura de autoria negra. A sombra da morte, que o acompanha desde a infância, ressurge como episódio decisivo em uma jornada existencial marcada pela destruição; por outro lado, é impossível dimensionar o poder dessas forças entrópicas sem considerar que, para Brownfield, a construção da virilidade é indissociável do afirmação do poder patriarcal.

A assertividade com que Alice Walker explora a dinâmica familiar e as tensões nela presentes, sobretudo no que diz respeito às condutas de homens negros, está intrinsecamente relacionada à recepção negativa que essa obra – assim como outras obras suas – encontraram junto a representantes da comunidade negra. É preciso levar em consideração, ademais, que A terceira vida de Grange Copeland foi publicado ainda no contexto da luta pelos Direitos Civis, o que ensejou duras críticas em torno de seu impacto político. O que é mais grave, contudo, é o fato de que Walker construiu algumas das passagens mais perturbadoras do livro a partir de episódios reais, como ela registra no “Posfácio” (presente na edição brasileira). Na coragem da escrita de Walker, em sua disposição para não tergiversar, estão as linhas de força que perpassam toda a sua obra.

O modo como as trajetórias de Grange Copeland e de seu filho Brownfield convergem e, afinal, colidem constitui uma poderosa demonstração dos efeitos devastadores do racismo sobre homens negros. Mesmo quando, em sua “terceira vida”, Grange Copeland desvela novas possibilidades para a existência – em que ocupa um espaço central seu afeto pela neta, Ruth –, não lhe é possível escapar do vórtice da violência; por outro lado, se toda a trajetória de Brownfield é construída em torno desse vórtice, o que o torna efetivamente incapaz de lidar de um modo saudável com a afetividade, não se pode esquecer que Grange tem nisso uma parcela de culpa. As maiores vítimas de tudo isso são, afinal, as mulheres – entre as quais assomam, de modo óbvio mas não exclusivo, as figuras de Mem e Ruth. Se o ato sacrificial de Grange – ápice e síntese de sua “terceira vida” – tem o propósito de oferecer à neta um caminho para liberdade, é impossível não considerar como as marcas da violência pesam sobre o seu destino.

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