Vivências periféricas nas crônicas de Cidinha da Silva

Cidinha da Silva. Cada tridente em seu lugar e outras crônicas. São Paulo: Instituto Kuanza, 2006.

tridenteUm punhado de adjetivos pode ser usado para caracterizar uma pessoa e, em alguns casos, apenas essas palavras dão conta de qualificar um indivíduo. Se eu fosse caracterizar Cidinha da Silva apenas com alguns adjetivos, diria que ela é preta, acadêmica, escritora e militante. Porém, creio que apenas quatro palavras não dão conta da importância que a autora tem para o meio acadêmico, literário e para os movimentos sociais. Melhor que listar características é conhecer suas produções literárias que congregam, belissimamente, o senso crítico e apurado da acadêmica e militante, além da inegável qualidade literária da escritora: Os Nove Pentes D’África (2009), Kuami (2011), Mar de Manu (2011), Oh, margem! Reinventa os rios (2011) e Racismo no Brasil e afetos correlatos (2013) são apenas alguns exemplos. Hoje, tratarei apenas da primeira obra da autora, publicada em 2006: Cada tridente em seu lugar e outras crônicas.

As crônicas se caracterizam, entre outras coisas, por narrar literariamente fatos do cotidiano; disso todos nós sabemos. Entretanto, chamo a atenção para o fato de que as crônicas de Cidinha vão além: incutem na leitora uma necessidade de refletir sobre o que é o cotidiano, principalmente para as pessoas negras. O livro é divido em três partes, contendo dez crônicas cada uma. Em todas elas, a questão racial está presente, mas cada uma trata do cotidiano negro de um modo particular.

Na primeira parte, o ambiente narrativo é exterior ao indivíduo: é a rua, é o ônibus. As narrativas falam sobre situações que acontecem a partir de encontros. É como se o destino fosse quase um personagem fundamental para esta sessão do livro, pois é ele quem promove os encontros, mote para o desenvolvimento e reflexão da situação narrada. Penso nesse destino como o contrarregra machadiano do romance Dom Casmurro: como aquele que determina a entrada dos personagens em cena no momento mais apropriado. Em Cada tridente em seu lugar, crônica de abertura e homônima do livro, o ponto de partida é o recebimento de uma carta e, depois, um encontro casual entre amigos no cinema. O narrador-personagem discute sobre a produção negra em duas instâncias interessantes: primeiro, sobre o fato de que negros também podem falar ou usar elementos de uma cultura não negra, motivado pela indagação de um leitor que não compreendia porque a autora fez referência ao tridente de Netuno e não ao tridente de Exu; e depois, sobre mais um questionamento feito em um encontro no cinema sobre a representação negra em um filme (a saber: O Homem que Copiava), cujo papel principal é interpretado por um negro. Saliento que este era um papel que um ator branco poderia desempenhar sem problema algum, afinal não era um papel marcado por estereótipos raciais. O livro começa assim: propondo reflexão logo de início.

Já a segunda parte tem a maioria dos textos mais voltada para a intimidade e para os relacionamentos. São retratos das dores e das delícias que gravitam em torno do amor. Em Sobre o exercício da arte difícil e nobre de estar só – destaco que o título faz referência ao livro Fala, amendoeira, de Carlos Drummond de Andrade –, o título drummondiano e a crônica constituem uma síntese do que é conviver com a solidão, e creio que nunca vi síntese mais bela literariamente para isso. Entretanto, creio que a beleza semântica do texto reside na metáfora do seu último período e da provocação que ela produz: “o amor é apenas o laço que enfeita um buquê de flores”. Na crônica Pode ir armando o coreto…, discute-se a conveniência de algumas relações amorosas – beirando a uma espécie de prostituição – e a tentativa constante de apagamento de uma ascendência negra da protagonista. Vale ressaltar que em todo o livro, especialmente nesta sessão, há marcas humorísticas em algumas crônicas, o que possibilita que vários temas graves sejam discutidos com leveza.

Na terceira e última parte, boa parte das crônicas aborda a questão do racismo estrutural. No texto Luana, é impossível não se emocionar com a situação de violência que atravessa a vida da personagem. Cada cena é descrita com objetividade e delicadeza ímpar, trazendo a leitora para a narrativa e fazendo com que ele compartilhe da angústia do bairro Jardim Irene, onde a protagonista nasceu. A crônica nos mostra a história por trás da notícia e relembra que a periferia e o tom da pele são elementos determinantes para a violência. A crônica TV a gato – cujo título brinca sonoramente com a expressão “TV a cabo” – é a última do livro e também é a última a ser brevemente analisada aqui. Há no texto uma “desrromantização” da pobreza, evidenciando que da segregação do espaço, do limitado acesso aos bens de consumo e cultura, gera-se uma revolta. E tal revolta desencadeia em uma subversão do sistema, exemplificado pela ilegalidade da TV a gato. Tudo isso marcado por ironias e constantes referências à leitora.

Os textos de Cada tridente em seu lugar e outras crônicas são leves e muito agradáveis à leitura. As crônicas são compostas em um tom de conversa, como se Cidinha estivesse ao nosso lado nos fazendo refletir, rir e (re)pensar sobre o cotidiano e sobre a nossa existência. Por fim, só me resta concordar com o que Marcelino Freire afirmou na orelha do livro: trata-se de uma obra maravilhosa que nos deixa com os sentimentos à flor da pele diante da sensibilidade da autora para tratar de assuntos tão humanos.

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