A luta pela liberdade no fim é a semente: Lula livre! (Parte II)

Angela Davis. A liberdade é uma luta constante. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2018.

a-liberdade-e-uma-luta-constante-9788575596128-553A liberdade é uma luta constante, da ativista Angela Davis, retorna à segunda parte deste ensaio como uma obra norteadora, que me inspirou e nos ajudará a pensar a prisão de Lula e sua representação. A prisão é uma experiência que marcou Angela, juntamente com toda uma geração de ativistas para a qual o FBI criou uma unidade especial. E, ainda que permaneça atuante na luta pela libertação dos presos políticos, seu trabalho nos últimos tempos se debruça sobre o que denomina de complexo industrial carcerário e seus efeitos globais.

Em ano de eleição, a prisão de uma das maiores lideranças populares do mundo, resultante de um processo sem provas e com uso de mecanismos inéditos, destaca um novo modelo de estado de exceção que reformulou sua forma de calar vozes discordantes. Foi uma condenação sob encomenda, com um viés eleitoral. Manteve-se a aparência do rito judicial, em alguns momentos nem isso, mas as cartas estavam marcadas. Visivelmente, Sérgio Moro tinha pronto o juízo para condenar antes mesmo de qualquer sessão. A defesa não foi ouvida, apenas tolerada frequentemente. Lula é, deste modo, um preso político.

Antes de Lula se entregar ao rápido e questionável processo que se estabeleceu contra ele, palavras de ordem dentro do PT (Partido dos Trabalhadores) e as manifestações populares em torno do país já davam conta de desenvolver uma narrativa de que, se Lula fosse preso, seria um preso político. E que eleição sem Lula é fraude. Para além das posições partidárias, a realidade é o processo que iniciou com uma matéria de jornal e avançou, mesmo sem provas, com base em delações, “convicções” — no mínimo, questionáveis — e depoimentos que resultaram na prisão do líder em pesquisas de intenção de votos em pleno ano eleitoral. Isso evidencia, mais uma vez, que o encarceramento de Lula não deve ser entendido como mais uma prisão comum de um político.

Esta prisão representa, entre tantas outras coisas, que no Brasil as leis continuarão sendo ainda mais manipuladas para atender aos interesses de uma parcela do Poder Judiciário, que em nada representa ou considera as necessidades do povo. Entre erros e acertos, o que Lula demonstra é um intenso conhecimento da alma popular brasileira. Não quero aqui me colocar em uma posição passiva e inocente ao exaltar Lula como um Deus, ou um ser tão poderoso quanto supõem seus detratores – tenho sérias críticas ao seu governo –, mas é inegável que ele foi um dos últimos líderes mundiais de massa no século XX. A grandeza dele está em ter mantido, de algum modo, a simplicidade de um trabalhador comum; isso permite que ele leve em consideração os pensamentos que podem estar passando pela cabeça do povo humilde nesse momento, e qual espécie de sentimento permanece calado, num canto angustiado do seu peito.

É preciso mostrar como as coisas melhoraram com Lula no poder e os retrocessos e a falta de democracia que existe no Brasil hoje. Estão tentando deslegitimar e apagar os avanços que ele conseguiu para tornar a sociedade mais justa e menos desigual. Ele fez mais que isso: não só provou que poderia governar, mas foi o presidente que mais criou universidades e ampliou o acesso a cursos superiores – e o curioso é pensar que o próprio foi tão julgado por não possuir ensino superior. Ele sabia na prática o que era não ter passado por uma “faculdade”. Conheceu a fome de perto e entendeu que a população pobre precisaria, no mínimo, de três refeições por dia, uma verdadeira revolução num país que matava de fome. Lula foi responsável por milhares deixarem a linha da miséria e se tornarem pessoas de direitos.

A elite não poderia aceitar que eu, filha de uma empregada doméstica, tivesse as mesmas oportunidades de estudo que o filho do patrão; que meu pai, motorista de ônibus, viajasse de avião, entre tantas outras teimosias de Lula. As políticas criadas por Lula venceram a elite brasileira, diversas vezes. Era demais para os interesses nacionais e internacionais. Entrou em cena, então, um acordo, “com a participação de todos”, para conter tantos avanços. Tiraram do poder a primeira mulher presidenta da República, eleita, sem qualquer crime, dando início ao golpe. A insistência de Lula se firma nisso, na sua popularidade, e tal fato não é algo menor diante da barbárie do processo edificado contra ele. Porém, o povo precisa diferenciar Lula de seus caçadores.

A situação nos obriga, povo pobre, povo preto, a fazer uma reflexão aprofundada. Se não for por disposição política, que seja então por uma questão de sobrevivência: contra os retrocessos, contra a indiferença e abandono dos nossos corpos. Ou nos unimos ou morremos. “Quantos mais precisarão morrer para que essa guerra acabe?” Quantos mais necessitam ser presos? É nosso dever nos unir para enfrentar esse caos, nas ruas e nas urnas. Enfrentá-lo pela liberdade de Lula, por justiça a Marielle Franco, pelo resgate da democracia e pelo respeito à vontade soberana do povo. No fim, a luta pela liberdade é a semente! Lutemos!

Para ler a primeira parte deste ensaio, clique aqui.

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