Cidinha da Silva e a vitória de Exu

exu
foto por Cidinha da Silva

Exu estava presente já na abertura do primeiro livro de Cidinha da Silva, Cada tridente em seu lugar, cuja epígrafe trazia a seguinte fala, atribuída a Exu Tranca Rua: “Ocê pensa que caminho e estrada é tudo a mesma coisa, mas tá errado, minha fia. A estrada é uma coisa, o caminho é outra. A estrada é uma via, uma picada no mato, um cortado no chão e é muita. O caminho é quando ocê escolhe uma estrada pra seguir e chegar no seu lugar”. Atenta ao ensinamento, de lá para cá, Cidinha da Silva trilhou um vasto caminho – lá se vão dezesseis livros – sem jamais prescindir da companhia de Exu.

Sempre presente, Exu faz seus próprios caminhos, valendo-se da escrita de Cidinha da Silva – inclusive, no inovador léxico cunhado pela escritora. Migrando para os títulos, veio para a capa – nomeando Exuzilhar, primeiro dos volumes que reúnem as melhores crônicas da escritora; e marcando presença em Um Exu em Nova York, livro que acaba de ganhar destaque entre os vencedores do Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional 2019. E, considerando a singular trajetória literária de Cidinha da Silva, podemos indagar: o que significa essa premiação?

Se a escrita de Cidinha da Silva prima pela extraordinária sensibilidade com que se debruça sobre a matéria cotidiana, convertida em texto literário de notável refinamento, não menos digno de nota é o modo como a escritora faz da prática criativa um exercício de liberdade: Cidinha é autora de narrativas que, por sua ousadia formal, desafiam as compartimentações tradicionais, percorrendo a fronteira entre a crônica e o conto; que, ao incorporar ao texto – inclusive com propósitos estéticos – um vocabulário derivado das tradições africanas, desafia os parâmetros literários que se constituíram a partir de valores eurocêntricos.

Transitando para além dos lugares-comuns e dos territórios colonizados pelo cânone, Cidinha traz para seus textos figuras periféricas e marginalizadas, desafiando representações estereotipadas que ainda se fazem presentes em muitas escritas contemporâneas. Trata-se, desse modo, de uma produção literária profundamente desestabilizadora, que permanentemente coloca sob questão as normatividades impostas pelas estruturas hegemônicas

Nesse sentido, a presença de Um Exu em Nova York entre as obras premiadas chama a atenção precisamente por evidenciar o reconhecimento a uma produção literária autêntica – como obra de uma escritora que, tendo escolhido sua estrada, percorreu-a até chegar ao seu lugar. Mas o lugar próprio de Exu não é a encruzilhada? Não está Exu associado às contradições, às impermanências, às incertezas? A vitória de Cidinha, sob a égide de Exu, é a vitória de uma literatura que faz da inquietude sua matéria fundamental e que faz das movências seu princípio criativo; uma literatura cujo sentido disruptivo está na permanente busca pela transformação – de si, mas também do mundo.

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