Memória negra em cordel – no feminino

Jarid Arraes. Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis. São Paulo: Pólen, 2017.

JARIDHEROINASJarid Arraes, cearense nascida em Juazeiro do Norte, tem, desde muito nova, uma relação muito direta com a literatura de cordel, já que cresceu em um ambiente permeado por manifestações tipicamente nordestinas – tendo como principais influenciadores seu avô, Abraão Batista, e seu pai, Hamurabi Batista, ambos cordelistas. Além do livro de que tratarei aqui, Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis, Arraes publicou em 2015 As lendas de Dandara, seu primeiro livro em prosa – que, mesclando lendas e fantasias com fatos históricos, busca recuperar a identidade de Dandara dos Palmares, há muito apagada da história do Brasil.
Alguns obstáculos que podem dificultar a inserção de Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis no universo literário precisam ser logo levantados. O primeiro, claro, é a sua autoria: Jarid é mulher, negra, nordestina. Indiscutível é o fato de que, se existe uma dificuldade de ascensão no meio literário para qualquer autora mulher, essa dificuldade é duplicada em se tratando da mulher negra – vide o caso envolvendo o renomado jornal Folha de São Paulo, que está levando às bancas uma coleção de livros intitulada Folha Mulheres na Literatura, na qual serão publicadas obras de 30 mulheres, nenhuma das quais negra, justamente em um período no qual muito se tem discutido acerca da importância da representatividade negra em todas as esferas sociais. Segundo, sua temática: fazer emergir socialmente a história de luta e resistência de mulheres negras que foram apagadas e silenciadas da história do Brasil por uma sociedade absurdamente machista e racista. Por último, porém não menos importante, há a escolha do gênero literário: o cordel, que sofre muito preconceito, já que é uma literatura tipicamente nordestina – e socialmente existe uma cultura de aversão ao que se produz no Nordeste. A própria cordelista já mencionou, em uma entrevista a um jornal pernambucano, a ocasião em que participou de um evento com outras escritoras, e todas foram apresentadas como tais, menos ela; esse preconceito é perpetrado com a colaboração de editoras e livrarias. Apontadas essas questões, uma coisa fica nítida: precisamos de mais Jarides na literatura, na política, na educação, no meio científico, em todos os espaços, porque precisamos dessa disposição e garra para mover a pirâmide social.
Em Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis, a cearense nos apresenta a biografia de 15 extraordinárias personalidades femininas que contribuíram ativamente para a construção da história brasileira, tendo vivido e atuado entre os séculos XVII e XX. O livro conta com ilustrações da designer gráfica e feminista negra Gabriela Pires – que nos levam, de algum modo, ao Nordeste, deixando marcado também na linguagem não-verbal o regionalismo próprio da literatura em cordel. Considerando que boa parte das mulheres selecionadas viveu entre os séculos XVII e XIX, as rimas abordarão o período escravocrata, em uma parte relevante do livro. A escravidão será apresentada como um período de luta, resistência e irmandade negra – como quando Maria Felipa, liderando quarenta mulheres, ateou fogo em mais de cinquenta embarcações portuguesas, além de enviar alimentos aos que precisavam.
Pensar em uma boa literatura é pensar em uma escrita que nos toca, que alcança a nossa emoção mais profunda, capaz de mudar nosso ânimo enquanto mergulhamos nos versos que internalizamos – exatamente o que faz Jarid, por meio de sua sensibilidade, ao compor essa estrofe referente à princesa da nação Cabinda, Zacimba Gaba:

Pelas noites, da senzala
Um alto canto se escutava
Era a princesa Zacimba
Que aos orixás cantava
Por justiça e liberdade
Todo dia ela clamava.

Difícil é não captar e sentir, de algum modo, essa dor gerada pela violência física e sexual que sofria diariamente Zacimba.
É possível encontrar, ao longo dos cordéis, marcas de pessoalidade, em que fica evidente a inclusão da escritora naqueles versos musicais. Estamos falando de uma escritora negra, que carrega em seu sangue a dor da escravidão, da identidade roubada, das características físicas ridicularizadas, das suas crenças demonizadas – e que, por isso, paga um preço alto até os dias de hoje. Compor esses versos, para além de oferecer uma possibilidade de reconhecimento social da existência dessas mulheres, parece ser um fortalecimento pessoal para Arraes, uma oportunidade de sentir-se representada – ao que soma ao dever de continuar esse legado de luta, como ela escreve nestes versos, referindo-se a Tereza de Benguela:

Que exemplo inspirador
Que mulher tão imponente
Foi Tereza de Benguela
Uma deusa para a gente
Que até hoje não desiste
Dessa luta pertinente.

O anseio de escrever sobre essas mulheres nasceu da falta. Falta delas nas escolas, nos meios acadêmicos, como se elas nunca tivessem existido ou como se suas existências tivessem sido tão insignificantes que não valeria a pena serem contadas; lendo o livro, vemos que não foi bem assim. Relatar esses feitos heroicos em uma linguagem simples, uma característica da literatura de cordel, facilita a propagação dessas histórias para classes menos favorecidas, que é justamente quem mais precisa conhecer e apreciar o leve e doce prazer da representação. Que todos se sintam impulsionados e instigados a entrar nessa batalha contra a desigualdade racial, social e de gênero, dando continuidade a uma luta de resistência que persiste por séculos a fio. Em algum momento, uma geração colherá nossos frutos.

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