Fazer da vida uma luta

Angela Davis. Mulheres, cultura e política. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2017.

ANGELA“Lifting as we climb” (“Erguendo-nos enquanto subimos”) – lema da Associação Nacional das Agremiações de Mulheres de Cor, no ano 1886 – é a frase repetida por Angela Davis ao longo do primeiro capítulo da obra Mulheres, Cultura e Política, em que a ativista, feminista e educadora norte-americana nos conduz, por meio de seu olhar interseccional, inicialmente ao cenário político-social dos Estados Unidos do final da década de 80. Faz-se necessário recordar que, nesse período, havia uma tensão instaurada no país devido à recém-conquista dos direitos civis dos negros – considerando-se ainda que a existência de uma Lei que assegurava a igualdade de cor, raça e religião não extinguia a discriminação social que vivenciavam todos que fugiam do padrão de pessoa branca, há muito estabelecido.

Mulher negra e comunista, Davis não desassocia os diferentes tipos de opressões – sexista, econômico/social, racial – existentes na sociedade. Por este motivo, ela defenderá o Movimento da Mulher Negra enquanto não se alcançar um movimento multirracial, que englobe as especificidades de todas as mulheres da sociedade – , já que o primeiro Movimento criado para defender a emancipação da mulher, a Federação Geral de Agremiações de Mulheres, era majoritariamente composto por mulheres brancas da classe média, o que certamente refletiria na pauta de luta, ou seja: suas reivindicações eram um reflexo das necessidades específicas dessa classe, que não eram, nem de longe, as mesmas questões das mulheres negras da classe trabalhadora. Sobre isso, ela afirma:

“Uma questão especialmente preocupante para as mulheres afro-americanas é o desemprego. De fato, o pré-requisito mais importante para o empoderamento é a possibilidade de obter um sustento adequado.”

Além dessa ideia de movimento multirracial, é possível captar em vários momentos um desejo de unificação da luta; por exemplo, quando em diferentes passagens ela usa expressões como “nossos irmãos”, referindo-se a homens negros da classe trabalhadora – que, embora isentos da opressão sexista, vivem sob a segregação racista e social, podendo sofrer opressão racista por uma mulher branca que outrora estava na posição de oprimida por causa do sexismo: é o desenho da pirâmide social reverberando o regime político em que estamos inseridos. Ela acredita que a luta é uma constante e, acima de tudo, tem que ser inclusiva, porque é necessário unidade para estremecer e modificar as estruturas fixadas socialmente. Não podemos deixar de evidenciar que, quando Davis traz a figura masculina como uma força necessária para a luta, ela desconstrói a imagem que alguns criaram das feministas sobre a demonização de todos os homens.

“Quando nós, enquanto mulheres afro-americanas, enquanto mulheres de minorias étnicas, continuamos a subir em direção ao empoderamento, erguemos conosco nossos irmãos de minorias étnicas, nossas irmãs e irmãos branca da classe trabalhadora e, efetivamente, todas as mulheres que sofrem os efeitos da opressão sexista. Nossa pauta de ativismo deve abranger uma série ampla de demandas.”

Por acreditar que só alcançaremos paz social quando vencermos todas as opressões, a norte-americana aponta o capitalismo como principal financiador dessas injustiças. Pensando ainda na luta por emancipação, Davis nos diz que enquanto a mulher branca da classe média busca por liberdade para administrar suas propriedades, seus bens, a mulher negra almeja entrar no mercado de trabalho para ajudar financeiramente sua família, servindo de mão de obra barata para o capitalismo. A ativista reproduz um trecho de Clara Zetkin – revolucionária do século XX que serviu de porta-voz ao proletariado – que evidencia como se deu essa exploração:

“[…] Ela se igualou ao homem como trabalhadora; a máquina tornou supérflua a força muscular, e em todos os lugares o trabalho da mulher apresentou os mesmos resultados de produção do que o trabalho do homem. E, uma vez que a mulher constitui uma força de trabalho e, acima de tudo, submissa […], os capitalistas multiplicaram as possibilidades de trabalho das mulheres na indústria.”

Dentre muitos de seus descontentamentos com o governo de Reagan – que teria como princípio administrativo “O lucro antes das pessoas, a ganância antes da necessidade e a riqueza antes da saúde” – estava a incitação à privatização da saúde, o que afetaria em níveis alarmantes a mulher negra, sendo uma forma velada de erradicação. Note esse dado oferecido por Davis:

“[…] Em 1983, apenas 44,1% das pessoas afro-americanas que receberam atendimento de saúde passaram por uma médica ou médica particular em consultório. Por outro lado, 26,5% foram a prontos-socorros, e 9,7% receberam atendimento em ambulatório. Em comparação, 57% das pessoas brancas atendidas realizaram consultas particulares, 13% foram a prontos-socorros e 16% a ambulatórios.”

Essa postura governamental dos Estados Unidos de finais do século XX nos faz viajar para o presente do Brasil, século XXI, em que temos vivido contínuos retrocessos políticos e sociais; nos leva a pensar na PEC 55, que congela gastos para saúde e educação por 20 anos, ou na reforma trabalhista, que deixa em aberto negociações sobre a jornada de trabalho entre empregado e patrão – sem mencionar o clamor existente para privatizar os serviços básicos da população, saúde e educação, logo em um país formado por uma maioria pobre que não tem meios para custear esses serviços privados. A possibilidade de criarmos essa ponte só reafirma que a luta não se finda nunca, que direitos conquistados não são permanentes, nem mesmo em se tratando dos básicos. A questão é: assistiremos a essas atrocidades sentados no sofá de casa ou tomaremos as ruas e esbravejaremos por igualdade e justiça social, fazendo valer a luta e a vida de muitas e muitos que nos antecederam? Deixo abaixo um trecho do discurso de Angela em uma cerimônia para seus alunos negros da Universidade da Califórnia (UCLA):

“[…] Vocês não deve nunca se esquecer de que pessoas fizeram passeatas, protestos, foram presas e perderam o emprego – algumas perderam até a vida – para abrir caminho para este momento de triunfo. Encorajo vocês a refletir seriamente sobre suas reponsabilidades para com aquelas pessoas cujo ativismo tornou possível que vocês alcançassem este importante objetivo. Ao colher o fruto de lutas do passado, vocês devem espalhar a semente de batalhas futuras.”

Em Mulheres, Cultura e Política, a ativista negra faz menção a outras grandes mulheres que lutaram veementemente por justiça e igualdade social e, para homenagear umas delas, viaja até a África do Sul para reconhecer e evidenciar a força de Winnie Mandela – esposa do maior líder negro sul-africano, Nelson Mandela –, dedicando-lhe um capítulo intitulado Quando uma mulher é uma rocha: reflexões sobre a autobiografia de Winnie Mandela. Essa parte da obra será usada para mostrar um pouco mais sobre essa mulher: se Mandela é uma figura reconhecida mundialmente devido à sua luta e comprometimento com seu povo, o mesmo deveria ocorrer com Winnie, que passou por inúmeras detenções, exílios e atentados contra sua vida, travando uma infindável luta contra o regime do apartheid. Esse espaço de reconhecimento, em que Angela expõe sua profunda admiração pela sul-africana, é de fundamental importância; é um mecanismo de renovação de forças, porque enxergar garra e força em outra mulher é como lembrar da garra e força que carregamos em nós e que, por vezes, esquecemos. Permita-se ser tocada por essa reflexão, feita pela própria Winnie:

“Quando eu era criança, pensava que nós possuíamos tudo. A liberdade que você tem quando criança, aquelas planícies ondulantes [de Transkei], a beleza do verde – como corríamos de um extremo ao outro do rio, percorrendo lindas verdes colinas ondeadas. Eu pensava que aquele era o meu país […] então […] quando você cresce […] um homem branco diz a você que seu próprio país não lhe pertence e que você precisa de um pedaço de papel para ficar ali.”

Visivelmente, Angela Davis foi e segue sendo um exemplo de luta para a sociedade, que tem por obrigação seguir este mesmo caminho – porque, como ela mesma afirma, “a paz, minhas irmãs e meus irmãos, também é assunto do povo negro e das mulheres negras. A falha em perceber isso poderá muito bem custar nossa vida”; afinal, quem são os mais atingidos pela guerra capitalista? Também não podemos deixar de enfatizar seu olhar empático em relação ao outro: sua luta inicial não era apenas por mulheres negras dos Estados Unidos, era uma luta racial universal, sem distinção de gênero; ela pensava e lutava pelas irmãs e irmãos que sofriam com o regime do apartheid na África do Sul, porque acredita que a nossa luta não pode se limitar à opressões que sofremos – temos de ir além, temos que olhar para o outro. Audre Lorde, aliás muito citada nesse livro de Davis, sintetiza muito bem essa ideia de assumir uma luta, mesmo que não soframos com seus danos:

“Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas.”

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