Cidinha conta Exu

Cidinha da Silva. Um Exu em Nova York. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.

Exu“Exu é o começo atravessa o avesso, Exu é o travesso que traça o final, Exu é o pau no caule que sobe sozinho que cabe o caminho do além de bem e mal.
Dito pelo não dito. Odara é bonito se a água não acaba Elegbara elegante no falo que baba. Exu é quem cruza e descruza o amor. Bará não tem cor, estará onde quer que qualquer corpo for pra todo trabalho. É o laço e o atalho. É o braço e a mão. Do falho e do justo. Exu é o custo do movimento, o tormento do ser que não é Exu.” É nessa espiritualidade que Cidinha da Silva, autora de Um Exu em Nova York, tece sua primeira obra de contos. A força dessa entidade central nas religiões de matriz africana se faz presente. Laroiê!

Ao ler a obra de Cidinha, nos deparamos com assuntos que estão muito presentes no nosso cotidiano e que atravessam sua escrita; chamam a atenção, sobretudo, questões associadas à população negra e LGBT. A autora se utiliza de simbolismos e representações que resgatam o nosso passado africano, numa tentativa de desfazer estereótipos e mostrar que algumas das crenças tidas como populares e presentes na sociedade atual têm ligação direta com as religiões de matriz africana. Cidinha revela que alguns contos já estavam prontos, como “Meia Noite”, “O velho e a moça”, “Meta-metal”, “Válvulas” e “Jangada é pau que boia”; outros foram escritos exclusivamente para compor a temática que costura os textos do livro: “Mameto”, “Farrina”, “Tambor das Minas” e “Sábado”. Os contos de Um Exu em Nova York se preocupam em mostrar o habitual, o que é corriqueiro e como os Orixás interferem em tudo o que ocorre neste mundo.

Exu é comunicador. Sem Exu, nada se faz, pois esta divindade possui o caráter de mensageiro, sendo aquele que é encarregado pela ligação entre o mundo material e espiritual. É através de sua atuação como comunicante que se torna possível a ligação com os outros Orixás. É essa face de Exu que Cidinha traz em sua obra. Assim como Exu, sua literatura é uma mensagem, é ligação ancestral com a religiosidade e um instrumento de comunicação e de interação social, que cumpre o papel de transmitir os conhecimentos e a cultura negra. O Exu andarilho também se faz presente. Os contos da escritora caminham por muitas terras e muitos momentos, dos tempos presentes às lembranças dolorosas da escravidão, de Minas Gerais a Nova York. Cidinha nos convida a fazer parte desses deslocamentos com Exu, imersos em um chamado lírico, revolucionário e, acima de tudo, ancestral. Essa obra é um apelo que nos faz olhar para dentro de nós e contarmos outras histórias sobre nós mesmas, que sejam diferentes daquelas que nos foram contadas há anos sobre nossas vontades, alegrias, sofrimentos e encontros.

É relevante pontuar a importância desta obra na desconstrução de estereótipos e preconceitos direcionados ao Candomblé e a Umbanda. Vemos em nossa sociedade que as religiões de matrizes africanas historicamente foram, e ainda são, consideradas menores; são vistas como menos importantes, e suas práticas permanecem sendo demonizadas. Quando Cidinha traz a figura dos Orixás sob outras perspectivas – como aqueles que protegem, que acompanham e estão presentes até nos momentos mais banais do nosso cotidiano, há uma preocupação em suscitar um compromisso de conhecer melhor a mitologia e cosmogonia africana, para que cada vez mais análises possam ser feitas e narrativas possam ser interpretadas. O título deste livro foi escolhido justamente para mostrar a força da diáspora africana, que está em todos os lugares, assim como Exu. O conto de abertura “I have shoes for you” também marca que a ideia de ancestralidade é essencial para autora.

Cidinha, destaque entre as escritoras e escritores negros que têm se dedicado à escrita contemporânea e a novos moldes de se fazer literatura, é autora de 13 livros de vários gêneros – crônicas, conto e romance –, para todo tipo de público. Como escritora e prosadora, usa sua liberdade para imaginar, criar, reinventar e quebrar diversos paradigmas da literatura afro-brasileira. Também atua e se posiciona politicamente, defendendo as causas em que acredita. Desenvolveu projetos de ações afirmativas de educação, de juventude e de relações comunitárias. Fundou o Instituto Kuanza e foi ativista de combate ao racismo na ONG Geledés – Instituto da Mulher Negra.

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